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CIDADE ESTADO DO VATICANO
CARTA ENCÍCLICA
ASCENDIT IN CAELUM
DO SUMO PONTÍFICE
PIO IV
SOBRE
O Mistério da Ascenção do Senhor e a
vida litúrgica da Igreja no mundo presente
Introdução
- “Ascendit in cælum, sedet ad dexteram Patris.”Com estas palavras, professadas com reverência pela Igreja em seu Símbolo de fé e cantadas com júbilo no Ofício Divino, proclamamos um dos mais sublimes mistérios da economia da salvação: a Ascensão gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, quarenta dias após Sua Ressurreição, quando, diante dos olhos dos discípulos, foi elevado e acolhido na glória do Pai.
- Não é este mistério uma lembrança distante, um evento relegado às páginas da história sagrada; ao contrário, a Ascensão é realidade viva e operante, que toca o coração da Igreja em cada século e em cada altar, pois nela se revela que a humanidade redimida em Cristo não caminha rumo ao nada, nem repousa no pó das ilusões passageiras, mas é chamada ao destino eterno: a comunhão perfeita com Deus.
- Se, por um lado, a Ascensão parece ser a despedida de Cristo do olhar humano, por outro lado ela é, na verdade, o início de uma presença ainda mais profunda. Aquele que subiu aos céus não se afastou, mas elevou a criação consigo; não abandonou os Seus, mas os introduziu no mistério de Sua realeza; não cessou de agir, mas começou a agir de modo universal, por Sua Igreja, pelos sacramentos e pelo Espírito Santo.
- Na celebração litúrgica deste santo mistério, a Igreja, peregrina na terra, contempla o céu aberto, e em seu canto antigo, como se unisse os coros dos Anjos aos corações dos homens, proclama:“Viri Galilæi, quid admiramini aspicientes in cælum? Hic Jesus… sic veniet quemadmodum vidistis eum euntem in cælum.”
- “Homens da Galileia, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus… voltará do mesmo modo como o vistes subir.”
- Assim, na Ascensão, a Igreja não recebe apenas uma doutrina: recebe uma missão. Não apenas contempla uma glória: recebe um mandato. Não apenas recorda um fato: recebe uma esperança que não engana. E por isso julgamos oportuno, nestes tempos tão inquietos, dirigir a toda a Igreja esta Carta Encíclica, para que o Mistério da Ascensão seja novamente compreendido em sua profundidade e vivido com renovado ardor.
Cristo sobe como Cabeça do Corpo
- A Ascensão do Senhor é inseparável de Sua Encarnação e de Sua Páscoa. Aquele que desceu, subiu; Aquele que assumiu a nossa carne, levou-a ao céu; Aquele que foi humilhado até a morte, foi exaltado acima de toda criatura.
- Cristo sobe não como espírito desligado do mundo, mas como Verbo encarnado, trazendo consigo os sinais da Paixão. Suas chagas, que na terra foram causa de escândalo para os ímpios e de compaixão para os justos, no céu resplandecem como troféus eternos: são as marcas da vitória do Amor.
- Por isso, a Ascensão não é fuga da realidade humana; é antes a glorificação definitiva da humanidade. Nela se manifesta que o homem, quando unido a Cristo, não está destinado à ruína, mas à eternidade; não ao esquecimento, mas à comunhão com Deus.
- A Igreja, ao celebrar a Ascensão, contempla Cristo como Cabeça do Corpo místico. Se a Cabeça está no céu, o Corpo não pode permanecer prisioneiro da lama da desesperança. E por isso, desde os primeiros séculos, os Padres proclamaram: “Hoje a nossa natureza foi elevada acima dos céus.” O céu, que parecia fechado desde o pecado de Adão, é reaberto pela obediência do novo Adão.
O Senhor sobe para preparar-nos um lugar
-
O próprio Cristo havia dito:
“Vou preparar-vos um lugar.”
E, como fiel Esposo, não abandona Sua Esposa, mas prepara-lhe a morada. A Ascensão é, portanto, a garantia de que nossa vida tem um sentido último: Deus não nos criou para um destino breve e vazio, mas para uma herança eterna. - Muitos homens de nosso tempo vivem como se o mundo fosse tudo. Uns se entregam ao prazer como se fosse eternidade; outros à ansiedade como se fossem condenados a carregar sozinhos o peso da existência; outros ainda se afogam em ideologias e promessas políticas como se nelas residisse a salvação. Entretanto, o coração humano permanece inquieto, pois somente repousa em Deus.
- A Ascensão proclama ao mundo que existe um “mais”, um “além”, um destino verdadeiro. Não um além que despreza a terra, mas um além que dá sentido à terra. Não um céu para alienar, mas um céu para santificar a história.
A Liturgia: lugar onde a Ascensão se torna presente
- A Igreja não é um povo que apenas recorda; é um povo que celebra. E celebrar, na fé católica, não é encenar, mas tornar presente o mistério.
- Na Liturgia, a Ascensão do Senhor não é um evento distante: ela é proclamada, cantada e oferecida. A Igreja sobe com Cristo sempre que oferece o Sacrifício eucarístico, pois o altar é, por natureza, a montanha santa onde o céu toca a terra.
- Quando o sacerdote proclama:“Sursum corda!” — “Corações ao alto!”ele não profere mera expressão piedosa, mas faz ecoar o próprio chamado da Ascensão. Ele convoca o povo a erguer o coração para onde Cristo está, sentado à direita do Pai.
- A resposta do povo:“Habemus ad Dominum.” — “O nosso coração está em Deus.”é profissão de fé ascensional: o cristão não é apenas cidadão de um país, nem apenas membro de uma cultura, mas peregrino que traz no peito uma pátria superior.
O Prefácio da Ascensão: o céu como destino e missão
-
A Liturgia romana canta com especial beleza no Prefácio da Ascensão:
“Ele não se afastou da nossa condição frágil, mas entrou no céu para nos dar a esperança de que também nós, seus membros, seremos levados para a glória.” - Nestas palavras está contido um tesouro espiritual. Cristo sobe não para deixar-nos órfãos, mas para fortalecer nossa esperança. E assim, a festa da Ascensão é ao mesmo tempo consolação e exigência: consola porque nos mostra o fim glorioso; exige porque nos chama a viver de modo digno dessa esperança.
A Liturgia das Horas e o canto da Igreja
- O Ofício Divino, especialmente nos hinos tradicionais, manifesta o espírito da Igreja neste tempo santo. Ela canta Cristo como Rei e Sacerdote eterno, e contempla o céu não como lugar distante, mas como altar perpétuo onde Cristo intercede.
- A Igreja, rezando as Horas, prolonga o eco da Ascensão ao longo do dia, como se dissesse ao mundo moderno, tão apressado e barulhento: o tempo pertence a Deus, e o destino do homem não é o esquecimento, mas a glória.
- Por isso, exortamos vivamente o clero e os fiéis a redescobrirem a Liturgia das Horas, pois ela educa o coração para viver na presença de Deus e faz da vida cotidiana uma subida espiritual.
A Ascenção e o perigo de uma Fé Estéril
- As palavras dos Anjos aos discípulos são penetrantes:
“Por que estais olhando para o céu?”
Elas não repreendem a adoração, mas repreendem a paralisia. - O cristão não pode reduzir sua fé a contemplação passiva. A Ascensão é contemplada para ser vivida. Cristo sobe e envia: “Ide e fazei discípulos.” Assim, a Igreja nasce missionária precisamente no momento em que Cristo se eleva.
- Alguns, em nossos dias, tentam dissolver a fé em ativismo social, esquecendo o céu; outros, por reação, buscam um espiritualismo desencarnado, esquecendo a terra. A Ascensão, porém, é o equilíbrio perfeito: Cristo está no céu, mas manda evangelizar a terra; Cristo reina na glória, mas chama a servir os pobres; Cristo intercede, mas exige testemunho.
- Não há verdadeira Ascensão sem missão, e não há missão verdadeira sem Ascensão interior.
A cultura da distração e do esquecimento
- Nunca como em nossos tempos houve tantas vozes, tantos sons, tantas imagens. O homem contemporâneo é cercado por estímulos e informações, mas frequentemente é privado do silêncio interior. Vive conectado a tudo, mas desconectado do essencial.
- Assim, a alma humana corre o risco de tornar-se incapaz de elevar-se. E quando não se eleva, adoece. Porque o homem foi criado para a transcendência: ele tem fome de infinito.
- O Mistério da Ascensão é o antídoto divino contra a superficialidade. Ele ensina que a vida não é apenas sobrevivência, nem somente produtividade, nem simples prazer. A vida é vocação, caminho, peregrinação, promessa.
A tristeza sem esperança e o Altar como Monte Olivete
- Cresce, em muitos lugares, uma tristeza que não é apenas psicológica, mas espiritual. É o vazio que surge quando se perde o sentido de Deus. É a fadiga de viver sem horizonte.
- A Ascensão proclama que existe horizonte, e que ele não é incerto: é Cristo. O céu não é uma hipótese poética, mas uma realidade inaugurada na carne do Ressuscitado.
- Se Cristo subiu com nossa humanidade, então nenhuma lágrima é inútil, nenhum sofrimento é esquecido, nenhum ato de amor se perde. Tudo pode ser redimido, tudo pode ser elevado.
- A Igreja sempre viu na Eucaristia o centro do mistério cristão. E não é possível compreender a Ascensão sem a Eucaristia.
- Cristo, ao subir, não abandonou Seu sacerdócio. Ao contrário: tornou-se Sacerdote eterno no santuário celeste. E cada Missa é participação real nesse sacerdócio. A liturgia terrena é reflexo e participação da liturgia do céu.
- Por isso, quando o sacerdote eleva o Corpo e o Sangue do Senhor, repete-se espiritualmente o gesto ascensional: Cristo é oferecido ao Pai, e o povo é elevado com Ele.
- Onde há altar, há céu aberto. Onde há Eucaristia, há Ascensão viva. E onde a Eucaristia é celebrada com fé, ali o mundo recebe a presença do Rei glorificado.
- Exortamos, portanto, que se preserve com máxima reverência a celebração eucarística: a dignidade do altar, a nobreza do canto, a pureza da doutrina, a beleza do rito e o silêncio sagrado. Porque uma Igreja que perde o sentido do sagrado perde também a consciência da Ascensão.
A Ascenção e o Espirito Santo
- O Senhor sobe, mas promete: “Recebereis uma força, ao descer sobre vós o Espírito Santo.”
A Ascensão abre o caminho para Pentecostes. - Cristo reina à direita do Pai e, dessa realeza, derrama o Espírito sobre a Igreja. Assim, o tempo entre Ascensão e Pentecostes é tempo de espera orante: tempo de Cenáculo.
- A Igreja de hoje precisa reencontrar o espírito do Cenáculo. Precisa aprender novamente a esperar, a rezar, a invocar. Muitos projetos humanos fracassam porque se apoiam apenas na força humana; mas a Igreja vive do Espírito.
- Onde o Espírito é invocado com fé, renasce a santidade; onde o Espírito é acolhido com humildade, floresce a unidade; onde o Espírito é obedecido, surge a verdadeira reforma.
Evangelizar em tempos de confusão
- A missão que Cristo confiou aos Apóstolos permanece a mesma, mas os desafios mudaram de rosto. Hoje, o Evangelho é frequentemente ridicularizado, relativizado ou reduzido a opinião privada.
- Muitos desejam uma Igreja silenciosa, limitada a cerimônias vazias, incapaz de falar ao mundo. Outros desejam uma Igreja que abandone sua identidade para agradar ao espírito do tempo. Ambos os caminhos são falsos.
- A Ascensão recorda-nos que Cristo é Senhor. E se Ele é Senhor, a Igreja não pode calar-se. Ela deve anunciar, com caridade e firmeza, a verdade que salva.
A evangelização no mundo digital
- A missão alcança também os espaços novos. O mundo digital tornou-se praça pública. Nele, milhões buscam sentido, ainda que não o confessem. Entretanto, esse mesmo mundo produz vícios, isolamento, agressividade e uma falsa sensação de comunhão.
- Exortamos os fiéis a fazer do ambiente digital um campo de testemunho cristão: não com discursos vazios, mas com presença verdadeira, palavras justas, defesa da dignidade humana e coragem moral.
- Contudo, advertimos: não se deve confundir exposição com missão. A missão nasce da oração e retorna à oração. A Ascensão nos ensina que o anúncio deve vir do alto: do coração unido a Deus.
A dignidade humana e o olhar para o céu
- Em nosso tempo, a dignidade humana é ameaçada por ideologias que negam a verdade do homem, por sistemas que exploram os pobres, por guerras que tratam pessoas como números, e por uma cultura que banaliza a vida.
- A Ascensão proclama que a carne humana tem valor eterno, pois foi assumida por Cristo e levada ao Pai. Por isso, a Igreja não pode calar-se diante de qualquer atentado contra a vida, desde o ventre materno até a velhice; diante de toda exploração; diante de toda violência; diante de toda injustiça social.
- Defender o homem é honrar a Ascensão, porque o homem foi feito para subir com Cristo.
- O Apóstolo exorta:
“Buscai as coisas do alto, onde Cristo está.”
Isso não significa desprezar as realidades terrenas, mas ordená-las ao seu fim verdadeiro. - Muitos pecados modernos têm raiz comum: o esquecimento do céu. Quando se perde a consciência do juízo eterno, a consciência moral se enfraquece. Quando se perde a esperança da glória, busca-se consolo em prazeres que escravizam.
- A Ascensão é, pois, uma escola de liberdade. Ela ensina que o cristão não é escravo do instante, mas herdeiro da eternidade.
- Por isso, chamamos os fiéis à conversão sincera, à confissão frequente, à vida sacramental, à pureza de coração e à caridade ativa. O cristão deve viver na terra como cidadão do céu.
Maria Mãe da Igreja Ascencional
- Não podemos contemplar a Ascensão sem dirigir o olhar para a Santíssima Virgem Maria. Ela, que acolheu o Verbo em seu seio, acompanhou a obra do Filho até a Cruz e permaneceu com os Apóstolos na oração do Cenáculo.
- Maria é a figura perfeita da Igreja: contemplativa e missionária. Ela guarda o mistério e gera Cristo para o mundo. Ela não se perde em curiosidades, mas permanece firme na fé.
- Ao meditarmos a Ascensão, suplicamos que Maria ensine à Igreja do nosso tempo a manter o olhar no céu sem abandonar a terra; a servir sem perder a oração; a anunciar sem perder a humildade; a construir sem esquecer a eternidade.
Viver a Ascenção em nossos tempos
- Veneráveis Irmãos e caríssimos filhos: o mundo precisa ver cristãos que subam. Não subam em orgulho, nem em domínio, mas subam em santidade. Subam na caridade. Subam na verdade. Subam na oração.
- A Ascensão do Senhor é a resposta divina à desesperança moderna. Ela proclama que o sofrimento não tem a última palavra, que a morte não reina, que o mal não é eterno, que a história tem um Rei, e que esse Rei é Cristo.
- Portanto, convocamos toda a Igreja a celebrar este santo mistério com fervor renovado: com solenidade na liturgia, com catequese sólida, com espírito missionário e com vida moral coerente.
- Exortamos especialmente:
- que as igrejas sejam lugares de adoração verdadeira;
- que o canto sagrado seja preservado com dignidade;
- que o povo cristão seja instruído na fé com clareza;
- que se restaure o sentido do silêncio e da reverência;
- que se viva a caridade concreta com os pobres e aflitos;
- que se proclame o Evangelho sem medo, mas com mansidão.
- Porque a Ascensão não é somente a glória de Cristo: é o anúncio do destino da Igreja. Onde está a Cabeça, ali deve estar o Corpo.
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 17 de Maio, Solenidade da Ascenção do Senhor, do ano 2026, primeiro de Pontificado.
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