Carta Encíclica "Ascendit In Caelum" | Sobre o Mistério da Ascenção do Senhor e a vida litúrgica da Igreja no mundo presente

 


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CARTA ENCÍCLICA
ASCENDIT IN CAELUM
DO SUMO PONTÍFICE
PIO IV
SOBRE

O Mistério da Ascenção do Senhor e a
vida litúrgica da Igreja no mundo presente


Introdução

  1. “Ascendit in cælum, sedet ad dexteram Patris.”
    Com estas palavras, professadas com reverência pela Igreja em seu Símbolo de fé e cantadas com júbilo no Ofício Divino, proclamamos um dos mais sublimes mistérios da economia da salvação: a Ascensão gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, quarenta dias após Sua Ressurreição, quando, diante dos olhos dos discípulos, foi elevado e acolhido na glória do Pai.
  2. Não é este mistério uma lembrança distante, um evento relegado às páginas da história sagrada; ao contrário, a Ascensão é realidade viva e operante, que toca o coração da Igreja em cada século e em cada altar, pois nela se revela que a humanidade redimida em Cristo não caminha rumo ao nada, nem repousa no pó das ilusões passageiras, mas é chamada ao destino eterno: a comunhão perfeita com Deus.
  3. Se, por um lado, a Ascensão parece ser a despedida de Cristo do olhar humano, por outro lado ela é, na verdade, o início de uma presença ainda mais profunda. Aquele que subiu aos céus não se afastou, mas elevou a criação consigo; não abandonou os Seus, mas os introduziu no mistério de Sua realeza; não cessou de agir, mas começou a agir de modo universal, por Sua Igreja, pelos sacramentos e pelo Espírito Santo.
  4. Na celebração litúrgica deste santo mistério, a Igreja, peregrina na terra, contempla o céu aberto, e em seu canto antigo, como se unisse os coros dos Anjos aos corações dos homens, proclama:
    “Viri Galilæi, quid admiramini aspicientes in cælum? Hic Jesus… sic veniet quemadmodum vidistis eum euntem in cælum.”
  5. “Homens da Galileia, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus… voltará do mesmo modo como o vistes subir.”
  6. Assim, na Ascensão, a Igreja não recebe apenas uma doutrina: recebe uma missão. Não apenas contempla uma glória: recebe um mandato. Não apenas recorda um fato: recebe uma esperança que não engana. E por isso julgamos oportuno, nestes tempos tão inquietos, dirigir a toda a Igreja esta Carta Encíclica, para que o Mistério da Ascensão seja novamente compreendido em sua profundidade e vivido com renovado ardor.

Cristo sobe como Cabeça do Corpo

  1. A Ascensão do Senhor é inseparável de Sua Encarnação e de Sua Páscoa. Aquele que desceu, subiu; Aquele que assumiu a nossa carne, levou-a ao céu; Aquele que foi humilhado até a morte, foi exaltado acima de toda criatura.
  2. Cristo sobe não como espírito desligado do mundo, mas como Verbo encarnado, trazendo consigo os sinais da Paixão. Suas chagas, que na terra foram causa de escândalo para os ímpios e de compaixão para os justos, no céu resplandecem como troféus eternos: são as marcas da vitória do Amor.
  3. Por isso, a Ascensão não é fuga da realidade humana; é antes a glorificação definitiva da humanidade. Nela se manifesta que o homem, quando unido a Cristo, não está destinado à ruína, mas à eternidade; não ao esquecimento, mas à comunhão com Deus.
  4. A Igreja, ao celebrar a Ascensão, contempla Cristo como Cabeça do Corpo místico. Se a Cabeça está no céu, o Corpo não pode permanecer prisioneiro da lama da desesperança. E por isso, desde os primeiros séculos, os Padres proclamaram: “Hoje a nossa natureza foi elevada acima dos céus.” O céu, que parecia fechado desde o pecado de Adão, é reaberto pela obediência do novo Adão.

O Senhor sobe para preparar-nos um lugar

  1. O próprio Cristo havia dito:
    “Vou preparar-vos um lugar.”
    E, como fiel Esposo, não abandona Sua Esposa, mas prepara-lhe a morada. A Ascensão é, portanto, a garantia de que nossa vida tem um sentido último: Deus não nos criou para um destino breve e vazio, mas para uma herança eterna.
  2. Muitos homens de nosso tempo vivem como se o mundo fosse tudo. Uns se entregam ao prazer como se fosse eternidade; outros à ansiedade como se fossem condenados a carregar sozinhos o peso da existência; outros ainda se afogam em ideologias e promessas políticas como se nelas residisse a salvação. Entretanto, o coração humano permanece inquieto, pois somente repousa em Deus.
  3. A Ascensão proclama ao mundo que existe um “mais”, um “além”, um destino verdadeiro. Não um além que despreza a terra, mas um além que dá sentido à terra. Não um céu para alienar, mas um céu para santificar a história.

A Liturgia: lugar onde a Ascensão se torna presente

  1. A Igreja não é um povo que apenas recorda; é um povo que celebra. E celebrar, na fé católica, não é encenar, mas tornar presente o mistério.
  2. Na Liturgia, a Ascensão do Senhor não é um evento distante: ela é proclamada, cantada e oferecida. A Igreja sobe com Cristo sempre que oferece o Sacrifício eucarístico, pois o altar é, por natureza, a montanha santa onde o céu toca a terra.
  3. Quando o sacerdote proclama:
    “Sursum corda!” — “Corações ao alto!”
    ele não profere mera expressão piedosa, mas faz ecoar o próprio chamado da Ascensão. Ele convoca o povo a erguer o coração para onde Cristo está, sentado à direita do Pai.
  4. A resposta do povo:
    “Habemus ad Dominum.” — “O nosso coração está em Deus.”
    é profissão de fé ascensional: o cristão não é apenas cidadão de um país, nem apenas membro de uma cultura, mas peregrino que traz no peito uma pátria superior.

O Prefácio da Ascensão: o céu como destino e missão

  1. A Liturgia romana canta com especial beleza no Prefácio da Ascensão:
    “Ele não se afastou da nossa condição frágil, mas entrou no céu para nos dar a esperança de que também nós, seus membros, seremos levados para a glória.”
  2. Nestas palavras está contido um tesouro espiritual. Cristo sobe não para deixar-nos órfãos, mas para fortalecer nossa esperança. E assim, a festa da Ascensão é ao mesmo tempo consolação e exigência: consola porque nos mostra o fim glorioso; exige porque nos chama a viver de modo digno dessa esperança.

A Liturgia das Horas e o canto da Igreja

  1. O Ofício Divino, especialmente nos hinos tradicionais, manifesta o espírito da Igreja neste tempo santo. Ela canta Cristo como Rei e Sacerdote eterno, e contempla o céu não como lugar distante, mas como altar perpétuo onde Cristo intercede.
  2. A Igreja, rezando as Horas, prolonga o eco da Ascensão ao longo do dia, como se dissesse ao mundo moderno, tão apressado e barulhento: o tempo pertence a Deus, e o destino do homem não é o esquecimento, mas a glória.
  3. Por isso, exortamos vivamente o clero e os fiéis a redescobrirem a Liturgia das Horas, pois ela educa o coração para viver na presença de Deus e faz da vida cotidiana uma subida espiritual.

A Ascenção e o perigo de uma Fé Estéril

  1. As palavras dos Anjos aos discípulos são penetrantes:
    “Por que estais olhando para o céu?”
    Elas não repreendem a adoração, mas repreendem a paralisia.
  2. O cristão não pode reduzir sua fé a contemplação passiva. A Ascensão é contemplada para ser vivida. Cristo sobe e envia: “Ide e fazei discípulos.” Assim, a Igreja nasce missionária precisamente no momento em que Cristo se eleva.
  3. Alguns, em nossos dias, tentam dissolver a fé em ativismo social, esquecendo o céu; outros, por reação, buscam um espiritualismo desencarnado, esquecendo a terra. A Ascensão, porém, é o equilíbrio perfeito: Cristo está no céu, mas manda evangelizar a terra; Cristo reina na glória, mas chama a servir os pobres; Cristo intercede, mas exige testemunho.
  4. Não há verdadeira Ascensão sem missão, e não há missão verdadeira sem Ascensão interior. 

A cultura da distração e do esquecimento

  1. Nunca como em nossos tempos houve tantas vozes, tantos sons, tantas imagens. O homem contemporâneo é cercado por estímulos e informações, mas frequentemente é privado do silêncio interior. Vive conectado a tudo, mas desconectado do essencial.
  2. Assim, a alma humana corre o risco de tornar-se incapaz de elevar-se. E quando não se eleva, adoece. Porque o homem foi criado para a transcendência: ele tem fome de infinito.
  3. O Mistério da Ascensão é o antídoto divino contra a superficialidade. Ele ensina que a vida não é apenas sobrevivência, nem somente produtividade, nem simples prazer. A vida é vocação, caminho, peregrinação, promessa.

A tristeza sem esperança e o Altar como Monte Olivete

  1. Cresce, em muitos lugares, uma tristeza que não é apenas psicológica, mas espiritual. É o vazio que surge quando se perde o sentido de Deus. É a fadiga de viver sem horizonte.
  2. A Ascensão proclama que existe horizonte, e que ele não é incerto: é Cristo. O céu não é uma hipótese poética, mas uma realidade inaugurada na carne do Ressuscitado.
  3. Se Cristo subiu com nossa humanidade, então nenhuma lágrima é inútil, nenhum sofrimento é esquecido, nenhum ato de amor se perde. Tudo pode ser redimido, tudo pode ser elevado.
  4. A Igreja sempre viu na Eucaristia o centro do mistério cristão. E não é possível compreender a Ascensão sem a Eucaristia.
  5. Cristo, ao subir, não abandonou Seu sacerdócio. Ao contrário: tornou-se Sacerdote eterno no santuário celeste. E cada Missa é participação real nesse sacerdócio. A liturgia terrena é reflexo e participação da liturgia do céu.
  6. Por isso, quando o sacerdote eleva o Corpo e o Sangue do Senhor, repete-se espiritualmente o gesto ascensional: Cristo é oferecido ao Pai, e o povo é elevado com Ele.
  7. Onde há altar, há céu aberto. Onde há Eucaristia, há Ascensão viva. E onde a Eucaristia é celebrada com fé, ali o mundo recebe a presença do Rei glorificado.
  8. Exortamos, portanto, que se preserve com máxima reverência a celebração eucarística: a dignidade do altar, a nobreza do canto, a pureza da doutrina, a beleza do rito e o silêncio sagrado. Porque uma Igreja que perde o sentido do sagrado perde também a consciência da Ascensão.

A Ascenção e o Espirito Santo

    1.  O Senhor sobe, mas promete: “Recebereis uma força, ao descer sobre vós o Espírito Santo.”
      A Ascensão abre o caminho para Pentecostes.
    2. Cristo reina à direita do Pai e, dessa realeza, derrama o Espírito sobre a Igreja. Assim, o tempo entre Ascensão e Pentecostes é tempo de espera orante: tempo de Cenáculo.
    3. A Igreja de hoje precisa reencontrar o espírito do Cenáculo. Precisa aprender novamente a esperar, a rezar, a invocar. Muitos projetos humanos fracassam porque se apoiam apenas na força humana; mas a Igreja vive do Espírito.
    4. Onde o Espírito é invocado com fé, renasce a santidade; onde o Espírito é acolhido com humildade, floresce a unidade; onde o Espírito é obedecido, surge a verdadeira reforma. 

    Evangelizar em tempos de confusão

    1. A missão que Cristo confiou aos Apóstolos permanece a mesma, mas os desafios mudaram de rosto. Hoje, o Evangelho é frequentemente ridicularizado, relativizado ou reduzido a opinião privada.
    2. Muitos desejam uma Igreja silenciosa, limitada a cerimônias vazias, incapaz de falar ao mundo. Outros desejam uma Igreja que abandone sua identidade para agradar ao espírito do tempo. Ambos os caminhos são falsos.
    3. A Ascensão recorda-nos que Cristo é Senhor. E se Ele é Senhor, a Igreja não pode calar-se. Ela deve anunciar, com caridade e firmeza, a verdade que salva.

    A evangelização no mundo digital

    1. A missão alcança também os espaços novos. O mundo digital tornou-se praça pública. Nele, milhões buscam sentido, ainda que não o confessem. Entretanto, esse mesmo mundo produz vícios, isolamento, agressividade e uma falsa sensação de comunhão.
    2. Exortamos os fiéis a fazer do ambiente digital um campo de testemunho cristão: não com discursos vazios, mas com presença verdadeira, palavras justas, defesa da dignidade humana e coragem moral.
    3. Contudo, advertimos: não se deve confundir exposição com missão. A missão nasce da oração e retorna à oração. A Ascensão nos ensina que o anúncio deve vir do alto: do coração unido a Deus.

    A dignidade humana e o olhar para o céu

    1. Em nosso tempo, a dignidade humana é ameaçada por ideologias que negam a verdade do homem, por sistemas que exploram os pobres, por guerras que tratam pessoas como números, e por uma cultura que banaliza a vida.
    2. A Ascensão proclama que a carne humana tem valor eterno, pois foi assumida por Cristo e levada ao Pai. Por isso, a Igreja não pode calar-se diante de qualquer atentado contra a vida, desde o ventre materno até a velhice; diante de toda exploração; diante de toda violência; diante de toda injustiça social.
    3. Defender o homem é honrar a Ascensão, porque o homem foi feito para subir com Cristo.
    4. O Apóstolo exorta:
      “Buscai as coisas do alto, onde Cristo está.”
      Isso não significa desprezar as realidades terrenas, mas ordená-las ao seu fim verdadeiro.
    5. Muitos pecados modernos têm raiz comum: o esquecimento do céu. Quando se perde a consciência do juízo eterno, a consciência moral se enfraquece. Quando se perde a esperança da glória, busca-se consolo em prazeres que escravizam.
    6. A Ascensão é, pois, uma escola de liberdade. Ela ensina que o cristão não é escravo do instante, mas herdeiro da eternidade.
    7. Por isso, chamamos os fiéis à conversão sincera, à confissão frequente, à vida sacramental, à pureza de coração e à caridade ativa. O cristão deve viver na terra como cidadão do céu.

      Maria Mãe da Igreja Ascencional

      1. Não podemos contemplar a Ascensão sem dirigir o olhar para a Santíssima Virgem Maria. Ela, que acolheu o Verbo em seu seio, acompanhou a obra do Filho até a Cruz e permaneceu com os Apóstolos na oração do Cenáculo.
      2. Maria é a figura perfeita da Igreja: contemplativa e missionária. Ela guarda o mistério e gera Cristo para o mundo. Ela não se perde em curiosidades, mas permanece firme na fé.
      3. Ao meditarmos a Ascensão, suplicamos que Maria ensine à Igreja do nosso tempo a manter o olhar no céu sem abandonar a terra; a servir sem perder a oração; a anunciar sem perder a humildade; a construir sem esquecer a eternidade.

        Viver a Ascenção em nossos tempos

        1. Veneráveis Irmãos e caríssimos filhos: o mundo precisa ver cristãos que subam. Não subam em orgulho, nem em domínio, mas subam em santidade. Subam na caridade. Subam na verdade. Subam na oração.
        2. A Ascensão do Senhor é a resposta divina à desesperança moderna. Ela proclama que o sofrimento não tem a última palavra, que a morte não reina, que o mal não é eterno, que a história tem um Rei, e que esse Rei é Cristo.
        3. Portanto, convocamos toda a Igreja a celebrar este santo mistério com fervor renovado: com solenidade na liturgia, com catequese sólida, com espírito missionário e com vida moral coerente.
        4. Exortamos especialmente:
        • que as igrejas sejam lugares de adoração verdadeira;
        • que o canto sagrado seja preservado com dignidade;
        • que o povo cristão seja instruído na fé com clareza;
        • que se restaure o sentido do silêncio e da reverência;
        • que se viva a caridade concreta com os pobres e aflitos;
        • que se proclame o Evangelho sem medo, mas com mansidão.
        1. Porque a Ascensão não é somente a glória de Cristo: é o anúncio do destino da Igreja. Onde está a Cabeça, ali deve estar o Corpo.
        Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 17 de Maio, Solenidade da Ascenção do Senhor, do ano 2026, primeiro de Pontificado.