Caríssimos,
A Quaresma é um caminho interior que a Igreja nos oferece como dom de graça. À semelhança do Senhor que, conduzido pelo Espírito, entrou no deserto para ali preparar o início de sua missão, também cada cristão é chamado a atravessar os seus próprios desertos. Em nossa vida quotidiana, experimentamos cansaços, silêncios, incompreensões, escolhas difíceis, esperas prolongadas, tais realidades, quando acolhidas com fé, tornam-se lugar de purificação do coração. O deserto é espaço de essencialidade, onde se aprende a distinguir o que passa daquilo que permanece. Ali o homem descobre que vive da Palavra que procede de Deus, e que somente nela encontra firmeza para enfrentar as provas da existência. Assim, a Quaresma revela o seu sentido mais profundo de conduzir-nos a uma fé mais consciente.
Neste tempo santo, a vida da Igreja adquire um tom sóbrio e luminoso. A liturgia, com a sua linguagem austera, guia-nos pelo caminho da conversão. As leituras proclamam a fidelidade de Deus, os salmos fazem ecoar o clamor de um coração arrependido, o silêncio torna-se oração. Neste ano, desejo propor uma forma concreta de abstinência: a abstinência das desavenças, das palavras duras, das divisões que ferem a comunhão. Que cada comunidade, cada família, cada coração escolha aproximar-se do perdão como gesto concreto de fé. A renúncia que agrada a Deus transforma-se em caridade viva e restaura a alegria da fraternidade.
Renovo, portanto, o convite a percorrer este itinerário com espírito decidido. Fora dos muros visíveis da Igreja, o mundo anseia por testemunhas de esperança em um mundo cercado de ódio, desamor e desunião. Dentro dela, cada batizado é chamado a ser sinal de reconciliação e de paz. A Quaresma conduz-nos à luz da Páscoa, onde a cruz revela o amor que sustenta a história. Que este tempo de graça desperte em todos um coração renovado, capaz de viver com autenticidade o Evangelho na Igreja e na vida de cada dia.
Dado em Roma, junto de São Pedro, sob o Nosso Anel do Pescador, no décimo oitavo dia do mês de fevereiro de dois mil e vinte e seis, Quarta-Feira de Cinzas, no segundo ano de Nosso Pontificado.


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