Carta do Cardeal Riccardo DiNardo à Sua Santidade, o Papa Urbano | Pedido de Renúncia

 


RICCARDO ALDOBRANDINI CARDEL DINARDO
POR MERCÊ DE DEUS E DA SÉ APOSTÓLICA
CARDEAL-BISPO DE VELLETRI-SEGNI
VIGÁRIO-GERAL DE SUA SANTIDADE PARA A DIOCESE DE ROMA
_______________________

“Mas o que era para mim lucro, passei a considerar como perda por amor de Cristo.” (Fl 3,7)


A Sua Santidade, o Papa Urbano

Beatíssimo Padre,

Com reverência filial, mas com a firmeza que a consciência impõe àqueles que temem a Deus mais do que aos homens (cf. At 24, 16), apresento-me ante Vossa Santidade, reconhecendo a imensidão do ministério petrino que lhe foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo. É com o coração pesaroso, mas movido por uma consciência iluminada, que vos dirijo estas palavras, nas quais manifesto minha decisão de RENUNCIAR aos ofícios que dignamente me concedeste de Vigário-Geral de Vossa Santidade para a Diocese de Roma, Presidente do L’Osservatore Romano e Grão-Mestre da Soberana Ordem Militar e Hospitalária de São João de Jerusalém, dita de Rodes, dita de Malta.

Ao longo de meu serviço à Santa Madre Igreja – que indignamente recebi por ato de benevolência e generosidade de Vossa Santidade – sempre me empenhei, com fidelidade e zelo incansável, em cumprir os sagrados deveres que me foram confiados, guiado pelos ensinamentos do Evangelho e pelo exemplo luminoso dos Santos. Contudo, Beatíssimo Padre, as circunstâncias presentes e as profundas incongruências que se têm achado impõem-me uma grave responsabilidade de consciência, que não posso, em sã razão, negligenciar.

O espírito do tempo, carregado de sombras, turva os ânimos e confunde as almas; já não se sente o zelo onde deveria arder, impetuosa, a chama da caridade. Se os Cardeais, segundo a reta ordem da Igreja, devem assistir o Romano Pontífice no governo do rebanho de Cristo (cf. Cân. 40), promover a fé e a moral como sentinelas inflexíveis da verdade (cf. Cân. 44) e ser espelhos da santidade e da unidade católica (cf. Cân. 49), como, pois, subsistir na dignidade cardinalícia quando o espírito do tempo e as vaidades obscurecem a prudência e a paz, outrora fraterna, já não habita entre os irmãos?

A Santa Madre Igreja merece pastores de alma íntegra e coração indiviso. Não me é dado permanecer onde a dúvida se faz escândalo. Acompanho o Doutor Angélico: "Onde há perigo para a fé, é lícito até mesmo repreender publicamente o superior, como fez Paulo com Pedro." (S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 33, a. 4, ad 2). Reconhecendo, portanto, o que estabelece o Código de Direito Canônico nos cânones que delineiam o papel dos Cardeais como assistentes do Romano Pontífice, promotores da fé, da moral e da unidade da Igreja, e exemplos de santidade e caridade pastoral, sinto-me compelido a agir em conformidade com essas sagradas obrigações. Diante das dissidências que se avolumam e as incongruências que delas decorrem tornam-me incapaz de exercer meu ministério com a clareza e a integridade que a Santa Igreja merece.

Eis que, pois, repito as palavras do santo e justo Simeão, ao contemplar a luz que dissipa as trevas: “Nunc dimittis servum tuum, Domine, secundum verbum tuum in pace: Quia viderunt oculi mei salutare tuum” – “Agora despedes, Senhor, em paz a teu servidor, segundo a tua palavra; pois já meus olhos têm visto tua salvação” (Lc 2, 29-30). Assim, com a mesma serenidade de Simeão, entrego-me à vontade do Senhor, confiando que Ele conduzirá sua Igreja pelos caminhos da verdade e da unidade.

Antes, porém, de recolher-me ao silêncio da vida monacal, permiti-me, Beatíssimo Padre, expressar meu mais venerado e especial agradecimento a quem tive a honra e a graça de servir tão de perto. Se minha indignidade não obscureceu a obra a que fui chamado, devo-o à sabedoria, à paciência e ao zelo pastoral de Vossa Santidade, cujo pontificado se ergue como esteio seguro e farol luminoso nestes tempos de tribulação. Pela prudência de vossa governança, muitos não se desviaram; pela firmeza de vossa palavra, muitos não sucumbiram às incertezas que açoitam a barca de Pedro.

Peço, pois, a Vossa Santidade que aceite minha renúncia e me conceda a graça de recolher-me à oração e à penitência, longe das voluptuosas movimentações que, temo, já não mais edifica, mas desagrega. Que a verdade resplandeça e que Deus, juiz eterno e justo, conduza todas as coisas conforme Sua vontade soberana. Que o Espírito Santo, prometido por Cristo à sua Igreja, ilumine os corações e as mentes de todos os que têm a responsabilidade de guiar o rebanho de Deus, para que, como diz o Salmista, "habitem unidos os irmãos" (Sl 133, 1).

Inclino-me ante Vossa Santidade, rogando por vossa bênção apostólica, enquanto permaneço, não mais no serviço, mas sempre na fidelidade.

Dado e passado em Roma, no Palácio Apostólico de Latrão, aos 16 dias do mês de Março, na memória de São Cirilo de Jerusalém, Bispo e Doutor da Igreja, do Ano Santo da Esperança de 2025, sob o pontificado de Urbano.



+ Riccardo Aldobrandini DiNardo
Cardeal-Bispo de Velletri-Segni