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L'Osservatore Romano | Luzes da Cátedra | As reflexões de um Cardeal sobre fé, liderança e os desafios da Igreja






GIORNALE QUOTIDIANO • POLITICO RELIGIOSO

Città del Vaticano | Edizione del 07 gennaio 2025

O CARDEAL TANCREDI LUDONE REFLETE SOBRE AS AÇÕES DO PAPA URBANO, OS DESAFIOS DA MORDERNIDADE E A CENTRALIDADE ESPIRITUAL DE ROMA.

O CAMERLENGO EMÉRITO COMPARTILHA SUAS REFLEXÕES SOBRE AS REFORMAS DA CÚRIA, A DIPLOMACIA VATICANA E O PAPEL DA IGREJA NO MUNDO ATUAL.

CIDADE DO VATICANO - Na estreia da coluna "Luzes da Cátedra", o L’Osservatore Romano tem a honra de apresentar uma entrevista exclusiva com o Cardeal Tancredi Ludone, uma das figuras mais marcantes da história recente da Igreja Católica, é um nome que ressoa com admiração e controvérsia nos corredores do Vaticano. Durante o pontificado de Gregório I, Ludone destacou-se como Secretário de Estado, sendo descrito como o braço direito do Papa. Sua trajetória, marcada por vigor administrativo e perspicácia diplomática, elevou-o a posições que ocupou com notável eficiência. Agora, como Camerlengo Emérito e Secretário de Estado Emérito, o Cardeal oferece uma perspectiva única sobre a Igreja, unindo experiência, sabedoria e uma visão profundamente enraizada na fé.


O Cardeal Emérito recebeu a equipe do L'Osservatore em seu apartamento no palácio de São Carlos, um edifício do Vaticano situado ao lado da residência de Santa Marta.


"Deus sempre demonstrou seu favor e graça", inicia o Cardeal ao comentar as reformas estruturais promovidas pelo Papa Urbano. Para Ludone, essas mudanças são mais do que ajustes administrativos: são uma expressão da Providência Divina que guia a Igreja. "Deus está em Roma. Está em Roma porque sua Igreja, hoje pastoreada pelo nosso Beatíssimo Papa Urbano, está em Deus. (...) E é indispensável e inaceitável que a Cúria e a própria Sé sejam contrárias aos feitos de suas santas mãos. Onde o Papa está, Roma também estará. Só assim, sim, somente assim, estaremos em Deus".

Ao abordar as grandiosas obras de renovação da Basílica de São Pedro e do Palácio Apostólico, o purpurado enfatizou a importância de equilibrar tradição e modernidade. "A Basílica de São Pedro, como um coração pulsante da cristandade, ergueu-se não apenas como uma obra de arte suprema, mas como sinal visível da Igreja una, santa,  católica e atual", declarou. Para o Cardeal, a conservação desse patrimônio transcende o campo material, sendo um ato de culto e um testemunho da fé de gerações: "Sua renovação, por conseguinte, não é um simples reparo material, mas um ato de culto que reafirma a centralidade de São Pedro e de seus sucessores no plano salvífico do Altíssimo. A conservação e renovação deste espaço são, assim, um gesto de fidelidade à memória histórica da Igreja e de zelo por sua missão no presente e no futuro. Garantir que o ministério petrino defenda isto é mais que vital".

A conversa também explorou o impacto das reformas na missão universal da Igreja. O Camerlengo Emérito classificou a reestruturação da Cúria como "ato de grande prudência e discernimento, digno da estatura de um Sucessor de Pedro que busca, com firmeza e humildade, adequar os instrumentos humanos da Igreja às exigências de sua missão divina". Para ele, essa renovação é uma resposta aos desafios contemporâneos. "Isto é preservar o caráter espiritual do serviço curial, combatendo o risco de que a administração se torne um mero exercício técnico ou político. No contexto atual do mundo em que vivemos, marcado por uma globalização acelerada e por crises tanto morais quanto espirituais, a renovação da Cúria é um ato profético".


O Cardeal Tancredi Ludone saúda o Papa Urbano no primeiro consistório com o Colégio de Cardeais.



Quando o tema migrou para o cenário geopolítico, o Cardeal, que guiou a Secretaria de Estado da Santa Se durante um grande período, destacou o papel singular da diplomacia vaticana. "É maximum officium, por parte da diplomacia da Santa Sé, um central e dinâmico objetivo senão da promoção da paz, da justiça e da dignidade inalienável da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus", afirmou. Ele elogiou a liderança do Papa Urbano em tempos marcados por tensões globais, "julgo visceral que a visão diplomática da figura do Santo Padre se destaque como um testemunho eloquente do papel único e insubstituível da Igreja na arena geopolítica contemporânea, tão marcada por tensões e conflitos que desafiam o bem comum e a estabilidade das nações".

Para Ludone, a atuação do Papa não é apenas um clamor por justiça, mas uma manifestação do compromisso da Igreja em construir pontes entre as nações e promover a reconciliação: "É precisamente neste contexto que a figura do Papa emerge como uma luz de esperança e sabedoria. Sua atuação não se limita a condenar as injustiças ou clamar pela paz; ela está profundamente enraizada no compromisso da Igreja de construir pontes entre as nações, favorecer o diálogo entre culturas e promover a dignidade de cada pessoa humana, especialmente dos mais vulneráveis. A diplomacia vaticana, sob sua liderança, permanece fiel ao princípio de que a verdadeira paz não é apenas a ausência de guerra, mas a presença de uma ordem justa fundada na verdade, na liberdade e no amor".

Questionado sobre os desafios enfrentados como Camerlengo, especialmente durante as transições de pontificado, Ludone destacou que a excelência administrativa é um ato de serviço à Igreja. "Nenhum ofício será tão difícil se estivermos com a determinação certa do que ele é e de como fazê-lo", disse. Ele lembrou com orgulho os momentos em que liderou a gestão patrimonial da Santa Sé, ressaltando a importância de garantir transparência e sustentabilidade na administração dos bens da Igreja, e ao ser questionado porque é definido por muitos como "homem de poder e de intrigas", respondeu: "Eu sofri muitos ataques. A obstinação com que fui tornado alvo me parece impiedosa, exagerada. Nunca organizei intrigas ou complôs. Estou convencido de ter sido apenas um bode expiatório. Sempre me ative às indicações dos papas com quem colaborei. Sempre tentei desempenhar bem as minhas tarefas. Então, acho que o motivo é que, se tivessem atacado um cardeal desconhecido, isso talvez não teria virado notícia. Mas agora eu guardo esse rótulo, é como se estivesse expiando os pecados aqui na terra".

A entrevista terminou com uma reflexão sobre o papel da Igreja na modernidade. Para o Cardeal, "conciliando a missão espiritual com seu impacto histórico, a Igreja não governa com poderes terrenos, mas orienta as consciências, promove o bem comum e testemunha, em todas as esferas, a soberania de Cristo, Rei e Senhor de todas as nações". 

Tancredi Ludone, com sua eloquência e sabedoria, reafirma que a Igreja, mesmo diante dos desafios do mundo contemporâneo, permanece firme em sua missão de ser luz e sal para todas as nações. Suas palavras são um chamado à unidade, à renovação e à fidelidade àquele que é o centro de tudo: Cristo.