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L'Osservatore Romano | “No nascimento do Salvador, Bento nasceu para a eternidade”: A reflexão sobre o legado de Bento XVI



GIORNALE QUOTIDIANO • POLITICO RELIGIOSO

Città del Vaticano | Edizione del 31 dicembre 2024

DOIS ANOS APÓS SEU FALECIMENTO, O PAPA URBANO CELEBRA A FIGURA DO PAPA BENTO XVI COMO GUARDIÃO DA FÉ E SINAL DE ESPERANÇA.

CIDADE DO VATICANO - Na manhã de hoje, 31 de dezembro, em uma celebração privada na capela do apartamento papal, o Papa Urbano presidiu uma missa em sufrágio pelos dois anos do falecimento de Bento XVI. Na ocasião, o Cardeal Odilo Scherer, Vice-Decano do Colégio de Cardeais, proferiu uma homilia marcada por profunda reverência e gratidão pelo legado do Papa Emérito.

O Cardeal iniciou sua reflexão destacando a simbologia do tempo natalino no contexto da páscoa eterna de Bento XVI, que partiu deste mundo em um período carregado de significado espiritual. “No nascimento do Salvador, Bento nasceu para a eternidade”, afirmou, lembrando que uma vida profundamente enraizada na fé e na missão divina carrega consigo marcas de transcendência e testemunho.

Encerrando sua homilia, o Cardeal evocou as palavras do próprio Bento XVI: “Quem crê nunca está sozinho, nem na vida nem na morte.” Essa frase, cheia de significado, sintetiza o testemunho de vida do Papa Emérito, que, em meio a desafios, permaneceu como um sinal de esperança em Cristo para toda a Igreja.

Na simplicidade do altar papal, a missa foi um momento de memória, gratidão e renovação do compromisso de cada cristão em ser, como Bento XVI, um sinal vivo da esperança e da verdade de Cristo no mundo.

Confira, na íntegra, a homilia do Cardeal Scherer:

Beatíssimo Padre,
estimados irmãos na ordem e no batismo.

Neste precioso tempo do Natal, em que celebramos e rememoramos a revelação da missão salvífica de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando o eterno tocou o tempo, encarnando-se sob a nossa condição para que os homens pudessem se salvar, alegrando-nos com toda a Santa Igreja, diversa em todo o mundo, quis a providência que nos alegrássemos duplamente, celebrando a páscoa eterna, ou seja, a passagem desta para a outra vida, do nosso amantíssimo Pontífice, o Papa Bento XVI. Creio que apenas uma pessoa com uma profunda intimidade com Nosso Senhor pode morrer, como Bento, em um tempo tão maravilhoso, repleto de significados. No nascimento do Salvador, Bento nasceu para a eternidade.

Quão imenso privilégio tivemos nós, os seus contemporâneos, de ouvir as palavras do Redentor que ressoaram através da doce voz do Sucessor de São Pedro, dotado de uma imensa intelectualidade que, compreendendo a sua própria missão, não anulava sua característica de nos exortar com caridade, caridade esta que está ligada intrinsecamente ligada à humildade. 

Destacou, erguendo-se com bradada voz, os perigos da ''cultura do relativismo'' promovida pela sociedade ocidental, algo que ferrenhamente lutou durante seu ministério pastoral, demostrando sua servidão total a Deus, para que, a exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Evangelho de São João, ''não perdesse nenhum dos que Ele confiou.''

Não obstante, e com o mesmo empenho, foi um reformador litúrgico por excelência, incentivando-nos a enxergar com sensibilidade a preciosidade do culto divino,  não só através da beleza material que se expressa através dos inúmeros artefatos que ornam e ajudam a nossa espiritualidade, mas, também, da riqueza e da carga espiritual que carrega em si. 

Não há como não considerar que a sua vida faz parte da vida de alguns de nós. Acompanhávamos os seus passos serenos, como peregrino pelo mundo, a anunciar o Evangelho de Cristo sem reservas. E mediante isso, a nossa consciência nos cobra a testemunhar, em nossa vida, a vida de Bento XVI, que sempre se colocou à serviço da Igreja para sua edificação.

Por fim, se pudéssemos elencar os benefícios deste pontificado para a Igreja, perceberíamos, ao decorrer dele, além de pastor e guia, o nosso amado pontífice foi um dom excelente de Deus, revelando a nós que entre a tantas situações que nos derrubam e desanimam, em Cristo, temos esperança.

Permitam-me, em minha indignidade, parafraseá-lo neste momento:

“Quem crê nunca está sozinho, nem na vida nem na morte.”

Bento, bendito que veio ao mundo para anunciar o Senhor.

Que a obra e a vida de Bento XVI nos inspire a sermos fieis colaboradores do Reino de Deus, assim como ele foi, "coperatoris veritatis", cooperador da verdade. 

Amém!