Amados irmãos e irmãs no batismo, que a PAZ e o Bem se estenda sobre vós e pelo mundo inteiro!
Que grande alegria nos reunirmos nesta grande festa, neste marco espiritual para a Igreja, os 800 anos do translado de São Francisco de Assis, um dos grandes santos de nossa história. Com ardente amor, Francisco nos inspira a olhar toda a criação, amar e buscar a Deus em tudo.
O Evangelho de hoje é um convite à descansarmos no Senhor, reconhecendo-nos filhos amados, ao passo em que ao tomarmos sobre nós o seu jugo, ele nos conduz em seus retos caminhos. Sem distanciar-me das ricas palavras desta santa liturgia, gostaria de deter-me em refletir a figura de São Francisco à partir de um episódio bíblico que parece tocar diretamente sua vida, missão e virtudes, o evangelho em que Jesus nos conta sobre a parábola do bom samaritano, que nos orienta a relação com a figura de Francisco através de uma inquietante pergunta do mestre da lei: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?”
Jesus não responde apresentando uma lista complicada de obrigações, como bem gostariam os adeptos ao rigoroso cumprimento da lei. Ele conduz aquele homem ao essencial: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e ao teu próximo como a ti mesmo.” E na sequência, Jesus introduz a uma parábola que conhecemos muito bem: a parábola do Bom Samaritano.
Mas existe algo muito importante nessa passagem. O mestre da Lei pergunta: “E quem é o meu próximo?” Ele quer saber até onde vai a obrigação de amar. Quem merece o meu amor? Quem está dentro e quem está fora? Até onde preciso me comprometer? Jesus muda completamente a pergunta. Ele não diz simplesmente quem é o próximo. Ele pergunta: “Qual dos três foi o próximo daquele homem?” O cristão deve perguntar: “De quem eu posso me aproximar? A quem posso manifestar a misericórdia de Deus?”
E é justamente aqui que podemos olhar para a vida de São Francisco de Assis. Francisco compreendeu profundamente que seguir Cristo significava aproximar-se, amar e servir. A tradição franciscana recorda o encontro de Francisco com um leproso como um momento decisivo de sua conversão. Aquilo que antes lhe causava repulsa tornou-se ocasião de encontro com Cristo. Francisco não ficou simplesmente olhando aquele homem de longe. Aproximou-se. É exatamente a lógica do Evangelho, a santidade começa muitas vezes quando deixamos de passar pelo outro lado da estrada, e tomamos uma atitude de alter Christus, como Jesus.
O Bom Samaritano não apenas sente pena daquele homem, ele cuida de suas feridas. Isso nos mostra que a misericórdia cristã não é apenas um sentimento, mas se transforma em gesto concreto, ao qual São Francisco compreendeu profundamente. Ele não queria simplesmente falar sobre Jesus. Ele queria viver como Jesus. Por isso abraçou uma vida de simplicidade, pobreza, fraternidade e serviço, e descobriu que o Evangelho não poderia permanecer apenas em palavras, era preciso transformar o modo de viver. E aqui está uma pergunta importante para nós: Nossa Fé já chegou às nossas mãos, aos nossos pés, ao nosso modo de tratar as pessoas? Porque podemos conhecer muito sobre Deus e, ao mesmo tempo, passar para o outro lado da estrada. O Evangelho nos lembra que o amor a Deus necessariamente nos conduz ao encontro do irmão.
Uma das grandes virtudes de São Francisco foi a pobreza evangélica. Ele não escolheu ser pobre simplesmente por desprezar as coisas materiais. Ele descobriu que, quando o coração está excessivamente preso às coisas, às riquezas, ao poder e à própria segurança, torna-se mais difícil enxergar o irmão. Quis menos, para amar mais. Às vezes temos tantas coisas ocupando nosso coração que não sobra espaço para o outro. São Francisco nos ensina que um coração livre é um coração disponível.
Francisco compreendeu também que seguir Jesus não significa caminhar sozinho. ATENÇÃO! Ninguém é cristão sozinho. Precisamos uns dos outros! Essa mensagem é atualíssima, e cai como uma luva aos nossos tempos, de tantos egoísmos, competições e indiferenças. Precisamos aprender a conviver com pessoas diferentes, a perdoar, a ter paciência, a carregar os limites dos outros e a permitir que os outros também carreguem os nossos. Francisco nos recorda que antes de qualquer diferença existe uma realidade maior: somos irmãos porque temos um mesmo Pai.
O Evangelho termina com uma ordem muito concreta de Jesus: “Vai e faze a mesma coisa.” E talvez essa seja uma das melhores sínteses da vida de São Francisco. Ele ouviu o Evangelho e tentou colocá-lo em prática. Quando encontrou o leproso, aproximou-se. Quando descobriu a pobreza evangélica, abraçou-a. Quando encontrou irmãos, acolheu-os. Quando contemplou a criação, louvou o Criador. Quando encontrou conflitos, buscou a paz. Quando contemplou Cristo crucificado, deixou que aquele amor transformasse sua própria vida.
Francisco não foi santo porque fez coisas extraordinárias aos olhos do mundo. Ele foi santo porque permitiu que o Evangelho se tornasse concreto em sua existência. Meus irmãos e minhas irmãs, o homem do Evangelho queria saber o que precisava fazer para alcançar a vida eterna. Jesus lhe mostrou um caminho muito simples e, ao mesmo tempo, exigente: amar a Deus e amar o próximo.
São Francisco de Assis entendeu isso e fez de sua vida uma resposta ao Evangelho. Por isso, hoje, podemos pedir: Senhor, dá-nos o coração de Francisco. Um coração apaixonado por Cristo, para que nossa vida seja verdadeiramente Evangelho. E diante de cada pessoa ferida que encontrarmos pelo caminho, possamos ouvir novamente a voz de Cristo: “Vai e faze a mesma coisa.”

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