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Città del Vaticano | Edizione del 01 maggio 2025CARDEAL MANCINI DENUNCIA O FECHAMENTO DA CÚRIA ROMANA E DEFENDE UMA REFORMA PROFUNDA
A IGREJA PRECISA ROMPER COM O CLERICALISMO E SE ABRIR ÀS PERIFERIAS ESPIRITUAIS E SOCIAIS, AFIRMA O CARDEAL
CIDADE DO VATICANO - Em uma entrevista exclusiva, o Cardeal Carlo Maria Mancini, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, oferece uma análise lúcida e contundente sobre os desafios que afligem a Igreja no mundo contemporâneo. Reconhecido por sua postura progressista e pastoral, o purpurado não hesita em lançar um olhar crítico sobre a situação da Cúria Romana, que considera mergulhada numa profunda crise institucional, marcada por uma preocupante desconexão com as realidades do povo de Deus.
“A Igreja não pode continuar a funcionar como um sistema fechado, distante das angústias e necessidades do povo fiel”, afirma o cardeal, denunciando aquilo que identifica como um enrijecimento institucional, fruto de uma estrutura autorreferencial e autossuficiente.
Para Mancini, a Cúria Romana se transformou, ao longo das décadas, numa verdadeira corte eclesiástica, presa a um sistema viciado, regido mais por jogos de poder do que pela fidelidade ao Evangelho. “Ela se isolou num mundo próprio, onde o prestígio e os privilégios obscurecem a essência do Evangelho, que é o serviço”, declara com franqueza. “As decisões, muitas vezes, são tomadas por aqueles que se perpetuam no comando, não em razão da missão, mas para garantir a sobrevivência de um sistema que serve a si mesmo.”
Em tom ainda mais grave, o cardeal afirma que há, no coração da Cúria, uma “cúpula endurecida”, um núcleo resistente à conversão, que prefere manter o status quo a enfrentar as exigências do Evangelho. “O problema não está apenas na estrutura, mas naqueles que a ocupam e a protegem como um castelo inexpugnável. Há uma cúpula do mal que age nas sombras, que manipula processos, bloqueia reformas, deslegitima vozes proféticas e impõe o silêncio sob o pretexto de unidade. Mas unidade não é uniformidade imposta; é comunhão construída na verdade.”
Sua crítica se aprofunda ao abordar o que chama de “o câncer da Igreja”: o clericalismo. “O clericalismo mina a alma da Igreja. Ele impede qualquer possibilidade de renovação autêntica, pois está alicerçado no medo de perder o controle e na resistência às mudanças que o Espírito inspira”, observa. “Vivemos tempos em que muitos se agarram às suas posições, tornando a Igreja uma instituição autorreferente, alheia ao clamor dos tempos.”
O cardeal insiste que a Cúria não pode mais funcionar como um centro de decisões fechado em si mesmo. “É preciso romper com a mentalidade de corte e recuperar a dimensão evangélica do serviço”, afirma. “A autoridade verdadeira não se impõe, mas se oferece no humilde gesto de escutar, de acolher, de se fazer próximo.”
Num gesto ousado, Mancini também questiona a rigidez com que a doutrina é muitas vezes apresentada, pedindo uma atitude de discernimento e revisão. “A verdade da fé não é estática nem fria; ela se encarna nas realidades concretas da vida humana e deve ser constantemente iluminada à luz da escuta, da misericórdia e do diálogo”, diz. “Uma doutrina que não se deixa interpelar pela realidade corre o risco de se tornar irrelevante.”
Sua visão é clara: a Cúria, tal como está, tornou-se “uma máquina fechada”, que vive para si mesma. “Enquanto a sociedade clama por respostas, a Igreja, muitas vezes, oferece silêncio ou rigidez. Não podemos continuar presos a estruturas que não evangelizam, que não acolhem, que não se deixam tocar pela dor do mundo. Muitos em sua cúpula já não creem no Evangelho como força transformadora, mas apenas como instrumento de manutenção de sua autoridade.”
A reforma da Igreja, segundo ele, começa necessariamente por uma reforma da Cúria — e esta, por sua vez, exige uma conversão do coração. “A Igreja não pode mais ser uma instituição voltada para o próprio prestígio. Devemos retornar à humildade, à escuta e ao serviço genuíno. A perpetuação do poder por medo de mudança é incompatível com a lógica do Evangelho.”
E conclui com um apelo forte e profético: “Quando a Cúria se fecha, a Igreja se afasta do seu povo. Precisamos de uma Igreja que se deixe tocar pela dor humana, que se faça presente nas periferias, espirituais e sociais. A autoridade da Igreja deve se expressar não na imposição, mas no testemunho do amor e no serviço humilde.”
Em sua palavra final, o Cardeal Mancini traça o horizonte de sua esperança: “A verdadeira força da Igreja está na sua capacidade de se abrir, de escutar, de caminhar com os últimos. A reforma da Igreja será, acima de tudo, uma reforma do coração. Devemos deixar de nos contemplar no espelho e aprender a reconhecer o rosto de Cristo nos rostos feridos da humanidade.”



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