L'Osservatore Romano | “Deus é Mãe”: a Homilia do Cardeal Mancini





GIORNALE QUOTIDIANO • POLITICO RELIGIOSO

Città del Vaticano | Edizione del 02 maggio 2025

A HOMILIA DO CARDEAL CARLO MANCINI POR OCASIÃO DA PRIMEIRA SEXTA-FEIRA DE MAIO

NA HOMILIA DIANTE DO SANTO PADRE, CARDEAL DENUNCIA UM SISTEMA QUE SACRIFICA AS MÃES E CLAMA POR UMA IGREJA MAIS MATERNA E MISERICORDIOSA

CIDADE DO VATICANO - Na Celebração Eucarística da Primeira Sexta-feira do mês de Maio, presidida por Sua Santidade o Papa Urbano, o Cardeal Carlo Mancini — Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé — proferiu sua homilia, tecendo um delicado e profundo elo espiritual entre o Coração de Cristo, a maternidade de Maria Santíssima e a vocação insubstituível de todas as mães — especialmente daquelas feridas pelas exigências de um mundo cada vez mais hostil à ternura.
Amados irmãos e irmãs em Cristo, este mês de maio, consagrado à Mãe de Deus, é também o mês em que a Igreja se curva com reverência diante de todas as mães — aquelas que geram, as que educam, as que choram, as que sustentam famílias com mãos calejadas e corações inflamados de amor. A intenção do Papa, neste mês, é clara: rezar por todas as mães. E como é oportuno, neste dia em que veneramos o Coração trespassado de Cristo, refletirmos sobre o coração trespassado das mães. Quantas vezes aquele “gládio que transpassa” o Coração de Maria não continua, misticamente, a atravessar o peito de tantas mulheres que hoje, silenciosamente, vivem o martírio cotidiano? Quantas mães, neste exato momento, estão sacrificando o tempo com seus filhos no altar impiedoso do deus-trabalho? Quantas foram empurradas por uma lógica econômica que valoriza a produção mais que a pessoa, o lucro mais que o vínculo, a velocidade mais que o colo? Sim, irmãos e irmãs, ouso dizer que Deus é Mãe. Ele é Pai, sim, como nos ensinou o Senhor Jesus, mas é também Mãe: acolhedora, terna, paciente, sensível às dores mais ocultas de seus filhos. O profeta Isaías ousou anunciar: “Pode, porventura, uma mulher esquecer-se do filho que amamenta?... Ainda que ela o esquecesse, Eu jamais te esqueceria” (Is 49,15). O Coração de Deus é mais maternal do que todas as mães da terra. Neste tempo, em que tantas estruturas sociais e econômicas têm ferido a dignidade das mulheres e esmagado a vocação materna sob o peso das exigências impiedosas do mercado, a Igreja precisa erguer a voz profética em defesa do cuidado, da ternura, do vínculo sagrado entre mãe e filho. Porque quando uma mãe não tem tempo de abraçar, quando não há espaço para o afeto, quando se condena ao esquecimento a arte simples de fazer um bolo para o lanche ou de acompanhar o filho na escola, não estamos apenas deformando uma família: estamos desfigurando a humanidadeO Coração de Jesus, ardente de amor, é o antídoto contra essa lógica desumana. Ele nos ensina que o amor se mede pelo dom, e não pela utilidade. O Evangelho não é compatível com o utilitarismo, nem com a lógica da produtividade que transforma as pessoas em números ou engrenagens. O Sagrado Coração é o protesto silencioso e eterno de Deus contra toda forma de opressão. E neste mês de Maria, olhamos para aquela que é a “mãe do Belo Amor”, aquela que soube silenciar para escutar, acolher sem julgar, sofrer sem se endurecer. Peçamos, pois, ao Coração de Cristo, que inflame o mundo com este amor misericordioso, profundamente humano, profundamente materno. Que a Igreja, com Maria, reencontre sempre a coragem de ser mãe, de acolher sem reservas, de chorar com os que choram e, sobretudo, de defender com firmeza todas as mulheres que, com fé heroica, fazem do seu cotidiano um Evangelho encarnado. E que, ao sairmos desta celebração, saibamos levar conosco o apelo do Coração de Cristo: amar até o fim, com entranhas de misericórdia. Amém.