Epistula a Cardeale Rossi in Die Nativitatis Suae

23 de fevereiro de 2023
Município do Xingu.

DOM AGNELO CARDEAL ROSSI
POR MERCÊ DE DEUS E DA SÉ APOSTÓLICA
CARDEAL-BISPO DE XII APOSTOLORUM

Meus irmãos,

Escrevo-vos nesta data em que, pela graça de Deus, celebro mais um ano de vida. Ao longo dos anos, fui sustentado pela fé, fortalecido pelo chamado ao serviço e enriquecido pelo encontro com tantos irmãos e irmãs que compartilharam comigo essa caminhada. Agradeço ao Senhor pelo apostolado que me confiou e por tudo o que vivi em Sua obra.

Sinto, no entanto, que estou partindo. Não de forma brusca ou abrupta, mas aos poucos, como quem se despede com serenidade deste mundo virtual, e minha missão se encaminha para seu desfecho final. A vida vai se recolhendo, e eu, que tanto servi ao altar, celebro cada vez menos. Meu corpo já não me permite as longas jornadas de antes, e minhas forças se retraem. Mas minha oração permanece. 

Todos os dias, rezo pelo Santo Padre, o Papa Urbano, a quem amo profundamente e a quem entrego minhas mais sinceras preces. Vejo nele o rosto de uma Igreja que não teme se sujar de poeira para caminhar junto ao povo, uma Igreja que não se fecha em seus palácios, mas que sai ao encontro dos que mais necessitam. Hoje, estou sempre acompanhado pela Irmã Orani, missionária da Sagrada Família, que, com ternura e paciência, cuida de mim nesta fase final da caminhada.

Nestes anos todos, fiz escolhas difíceis, e delas não me arrependo. Sei que algumas de minhas decisões geraram divisões e resistências. Entre elas, a firme posição que tomei contra a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Não me arrependo de tê-los banido, pois a fidelidade ao Concílio Vaticano II e à renovação da Igreja exigia clareza e compromisso. No entanto, lamento profundamente a falta de unidade que ainda pesa sobre nós. A divisão dentro da Igreja é uma ferida que sangra, e, se há algo que me entristece, é ver irmãos caminhando em direções opostas, incapazes de se reconhecerem na mesma fé.

A todos que caminharam comigo, minha mais profunda gratidão. Peço desculpas a quem magoei ao longo dessa caminhada. Sei que não fui perfeito e que minhas palavras, às vezes, podem ter sido duras. Mas se errei, foi sempre por zelo, por amor à Igreja, por um desejo sincero de vê-la mais próxima do Evangelho. E, acima de tudo, louvo ao Senhor por tudo que vivi, pelo chamado que recebi, pelas batalhas que travei e pelos irmãos e irmãs que encontrei pelo caminho.

A todos vocês, meu mais profundo obrigado. Que continuemos juntos, ainda que um dia eu não esteja mais aqui. Que a luta pela justiça não esmoreça, que a fé não se torne refém do medo, que a esperança não nos abandone. O Reino de Deus é tarefa diária, e cada um de nós tem sua parte a cumprir.

CARDEAL AGNELO ROSSI
Cardeal-Bispo XII Apóstolos