Carta ao Santo Padre Urbano | Pedido de Emeritação


GIOVANNI BATTISTA CARDEAL RÈ
POR MERCÊ DE DEUS E DA SANTA SÉ APOSTÓLICA
CARDEAL-BISPO DI PALESTRINA E ÓSTIA
DECANO DO SACRO COLÉGIO CARDINALÍCIO
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Cidade do Vaticano, 19 de fevereiro de 2025.

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3,1).

Beatíssimo Padre,

    O tempo é um mistério que nos escapa, mas que, inevitavelmente, nos ensina. Ele nos molda, nos amadurece e, pouco a pouco, nos faz compreender que cada instante da existência se inscreve no grande livro da eternidade, e a nós, frágeis peregrinos, cabe tão somente a tarefa de interpretar o desígnio divino impresso na sucessão dos dias. 

    Ao longo do tempo, comtemplei a mão de Deus a guiar-me, sustentando-me nas alegrias e nas provações. Trago no espírito a memória do serviço a esta amada Igreja. Tive a graça de trilhar muitos caminhos, de exercer diversos ofícios, mas nada se compara ao peso e à graça de ter ocupado a Sé de Pedro sob o nome de João I – o papado mais longevo de nossa história. Servi, com todas as forças que possuía, à Esposa de Cristo, e nela encontrei a prova mais absoluta do amor divino. Não me iludo: a honra de cada ofício eclesiástico traz consigo a responsabilidade do sacrifício, pois aquele que é chamado ao serviço do altar deve estar pronto a imolar-se com o Cordeiro.

    Durante minha trajetória eclesial, pude contar com a fraternidade de grandes amigos, e entre eles, Vossa Santidade sempre ocupou um lugar especial. Fomos companheiros de caminhada, servimos sob diferentes pontificados, e enfrentamos, lado a lado, os desafios que o Senhor nos permitiu viver. Mas o tempo não cessa. Ele nos ensina que há momentos de assumir responsabilidades e momentos de deixá-las. Sinto, no mais íntimo de minha alma, que já dei tudo o que podia. Chega o momento em que as mãos, outrora firmes no timão, devem soltá-lo; em que a voz, acostumada a se desgastar, deve aprender o silêncio. 

    Sei que a barca de Pedro continuará a singrar as águas do mundo sob a condução firme de Vossa Santidade, assim como sei que a Providência não abandona aqueles que depositam n’Ela sua esperança. Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, rogo humildemente a Vossa Santidade que me conceda a graça da emeritação, para que, liberto das obrigações do governo, possa dispor-me em oração e meditação nos dias que me restam, preparando-me para a última e definitiva viagem.

    Que Sua Santidade se digne conceder-me sua pia bênção apostólica e, em sua generosidade, aceite este pedido que não faço sem dor, mas com serena resignação, na certeza de que, em Cristo, todas as coisas encontram seu devido tempo. 

    De vosso humilde e devotíssimo servo, 

♰ Giovanni Battista Card. Rè

Decanus