Congregação dos Institutos de Vida Consagrada | A união sagrada entre Leigos e Religiosos: uma missão comum na renovação da Igreja


DOM FREI ANSELMO CARDEAL WEBER, OFMCap
POR MERCÊ DE DEUS E DA SANTA SÉ APOSTÓLICA
PREFEITO DA CONGREGAÇÃO DOS INSTITUTOS DE VIDA CONSAGRADA E SOCIEDADES DE VIDA APOSTÓLICA

A vós, irmãos, paz e fé da parte de Deus, o Pai, e do Senhor Jesus Cristo.

Com um espírito de profunda gratidão a Deus e confiança no Espírito Santo, dirijo-me a vós, amados irmãos e irmãs, para partilhar reflexões sobre a relação vital e providencial entre leigos e ordens religiosas. O recente Sínodo dos Cristãos Leigos convoca-nos a uma renovação em nossa compreensão da missão universal da Igreja. Este apelo é um convite para reconhecer, mais do que nunca, a importância da participação ativa dos leigos nas obras da Igreja, de forma harmoniosa e sinodal, juntamente com os religiosos, os quais vivem sua vocação de maneira exemplar e, ao mesmo tempo, abrem caminhos para o serviço de todos os fiéis.
Em resposta ao chamamento do Papa, e com o coração repleto de fé, é necessário ressaltar que a relação entre os leigos e os religiosos deve ser profundamente transformadora, sendo uma aliança providencial para a missão da Igreja no mundo contemporâneo. Neste espírito de comunhão, inspirado pelos ensinamentos do Concílio Vaticano II, especialmente a constituição Lumen Gentium, a Igreja é convocada a viver em uma unidade dinâmica que inclui todos os seus membros, consagrados e leigos, em uma missão comum e integradora.

A COMUNHÃO DE VOCAÇÕES: O CORPO MÍSTICO DE CRISTO EM DIVERSIDADE E UNIDADE

A Igreja, como Corpo Místico de Cristo, é composta por diferentes membros, cada um com sua função e dignidade, mas todos unidos em Cristo. Os leigos e os religiosos compartilham da mesma dignidade batismal, sendo chamados a viver sua vocação particular dentro do grande mistério de Cristo. O Concílio Vaticano II, em sua constituição Lumen Gentium, nos ensina que "a Igreja é uma, santa, católica e apostólica, e que todos, leigos e clérigos, têm um papel a desempenhar na edificação do Reino de Deus" (LG, 1).
Esta vocação comum exige que os leigos e os religiosos vivam uma colaboração sinodal, onde os dons de cada estado de vida são respeitados e valorizados. Os religiosos, com sua dedicação à vida contemplativa e à oração, têm a missão de iluminar a vida do Povo de Deus, enquanto os leigos, integrados nesse dinamismo, são chamados a levar o Evangelho para os ambientes onde os religiosos, por sua vocação específica, não podem estar. Assim, a Igreja é chamada a ser o "sal da terra" e a "luz do mundo" (cf. Mt 5,13-14), um compromisso que exige a união dos carismas, para que todos possamos ser instrumentos da graça divina.

O TESOURO ESPIRITUAL DAS ORDENS RELIGIOSAS: UMA HERANÇA A SER COMPARTILHADA

As ordens religiosas, ao longo da história da Igreja, têm sido fontes inesgotáveis de riqueza espiritual. São nelas que encontramos a essência da vida cristã em sua plenitude: a oração fervorosa, a meditação da Palavra de Deus, o serviço à caridade, a evangelização e a educação. São carismas de uma tradição viva, que não se limita a uma elite consagrada, mas que deve ser partilhada com todos os membros da Igreja.
Os leigos, por sua vez, são chamados a viver essa espiritualidade em seus próprios contextos de vida. As ordens terceiras, como as das várias famílias religiosas, têm sido fundamentais nesse processo, proporcionando aos leigos a oportunidade de ingressar, de uma maneira específica, no espírito das ordens, assumindo uma vida de oração, de caridade e de compromisso com a missão evangelizadora da Igreja. A participação nas ordens terceiras não é uma ação secundária, mas uma vivência integral de uma espiritualidade profunda, capaz de transformar as realidades do mundo e da sociedade.

LEIGOS E A ESPIRITUALIDADE DA VIDA RELIGIOSA

A história da Igreja nos oferece exemplos grandiosos de leigos que, inspirados pela espiritualidade das ordens religiosas, tornaram-se faróis de santidade e de serviço para os outros. São exemplos como Santa Catarina de Sena, leiga da Ordem Terceira Dominicana, que, com sua vida de oração e serviço, se tornou uma das maiores santas da Igreja, não só pelo seu zelo pastoral, mas também pelo seu amor à Igreja e ao Papa, com um testemunho indelével de fé.
Outro exemplo é São Luís e Santa Zélia Martin, pais de Santa Teresinha do Menino Jesus, que, embora não fossem religiosos, viveram com uma intensidade admirável a espiritualidade carmelita, sendo exemplos para sua filha e para todos os cristãos que buscam viver em santidade no seio de suas famílias. Esses exemplos são testemunhos claros de como as ordens religiosas, através de seus carismas, formam não apenas consagrados, mas também leigos missionários, capazes de transformar o mundo em que vivem.

A NECESSIDADE DA RENOVAÇÃO E CRIAÇÃO DE INICIATIVAS LEIGAS

A dinâmica da Igreja no mundo contemporâneo exige de nós uma visão renovada e audaciosa. O surgimento de novas ordens terceiras, novas formas de consagração leiga e novas iniciativas espirituais não é apenas uma necessidade, mas uma resposta ao clamor dos tempos. A renovação da Igreja passa por esse impulso criativo do Espírito Santo, que constantemente suscita novas formas de viver a vida consagrada e missionária.
É, portanto, essencial que os religiosos, juntos com os leigos, incentivem a criação de novas formas de vida consagrada, que acolham os desafios do mundo moderno, mas que também sejam radicais na busca pela santidade e pelo serviço aos irmãos. O convite para a criação de novas ordens terceiras e de movimentos leigos deve ser uma prioridade pastoral, para que a Igreja possa continuar a ser um farol de luz no mundo.

O DESAFIO DE EVANGELIZAR COM AUTENTICIDADE NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

A tarefa evangelizadora da Igreja é hoje mais urgente do que nunca. O mundo contemporâneo, com suas complexidades e desafios, exige que a Igreja se reconfigure em sua missão, adaptando-se às novas realidades, mas sem jamais perder sua identidade essencial. É nesse contexto que a colaboração entre leigos e religiosos se torna fundamental.
Os leigos, com sua inserção no mundo secular, são chamados a ser sal e luz em seus ambientes de trabalho, de estudo e de vida familiar. Porém, essa ação só será frutífera se estiver profundamente enraizada na espiritualidade que as ordens religiosas oferecem. Por isso, é urgente que religiosos e leigos caminhem juntos, com um único coração, para levar a mensagem de Cristo a todos os cantos do mundo.

O CHAMADO AO SÍNODO

Através da convocação do Santo Padre para o Sínodo dos Leigos, somos desafiados a integrar ainda mais os leigos nas atividades da Igreja, especialmente nas comunidades religiosas. Este é um momento oportuno para os religiosos, com sua sabedoria e experiência de vida consagrada, estenderem suas mãos aos leigos, convidando-os a participar ativamente das atividades espirituais, formativas e missionárias.
Os religiosos têm uma responsabilidade única: abrir as portas de suas casas, de seus corações e de suas atividades, permitindo que os leigos sejam parte integrante do processo formativo e apostólico. A Igreja não pode mais se contentar com uma participação limitada dos leigos, mas deve vê-los como co-participantes no ministério e na missão. A vida consagrada deve ser um modelo de santidade, e não apenas um testemunho de vida separada. Cada vez mais, os leigos devem ser chamados a ser parte do corpo ativo da Igreja, não apenas como ajudantes, mas como verdadeiros missionários e discípulos de Cristo.

CONCLUSÃO: UMA MISSÃO COMUM NO ESPÍRITO DE UNIDADE E RENOVAÇÃO

Ao concluir esta carta, dirijo-me a todos com um coração repleto de confiança na ação do Espírito Santo, que nos guia em cada passo rumo à verdadeira renovação da Igreja. O convite que o Santo Padre, o Papa, nos fez, através do Sínodo dos Leigos, é um apelo à unidade e à cooperação mútua entre religiosos e leigos, para que juntos possamos cumprir a missão evangelizadora do Senhor, com renovado zelo e comprometimento.
A missão que temos diante de nós não é um caminho isolado, mas uma jornada compartilhada. Leigos e religiosos, com suas vocações complementares, são chamados a edificar o Reino de Deus na terra. Que esta colaboração seja mais que uma união de esforços, mas uma vivência sinodal, onde todos, em espírito de humildade e amor fraterno, sejam co-participantes na missão de Cristo.
Não podemos esquecer que a Igreja, por sua natureza viva e dinâmica, deve sempre ser capaz de se renovar, adaptando-se às necessidades do mundo contemporâneo, sem perder sua essência. Os leigos, com seu testemunho vibrante no mundo secular, e os religiosos, com sua consagração profunda, têm muito a oferecer mutuamente. É necessário, portanto, que cada um, no lugar onde Deus os colocou, se empenhe em colaborar com os outros, buscando sempre viver o Evangelho com autenticidade e radicalidade.

Que, com o auxílio de Nossa Senhora, Mãe da Igreja, que nos acompanha e sustenta em todas as circunstâncias, possamos, em conjunto, fazer de nossa Igreja um sinal de esperança, luz e unidade para o mundo. E, assim como Cristo nos chamou para ser luz do mundo e sal da terra, que sejamos, na diversidade de nossas vocações, testemunhas vivas de Sua presença transformadora.

Dado e passado em Roma, na Congregação dos Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica, ao quarto dia do mês de dezembro do ano de dois mil e vinte e quatro da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Fraternalmente,


O Papa Augusto aprovou este documento em audiência concedida ao prefeito subscrito, realizado no Gabinete Pontifício em três de dezembro do ano corrente.