Carta Doutrinal "Apostolorum Christi'' | Congregação para a Doutrina da Fé

  


CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ
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CARTA DOUTRINAL
Apostolorum Christi

I. Introdução

A escolha dos doze Apóstolos por Jesus Cristo é um dos eventos mais significativos e simbólicos da fundação da Igreja, marcando um ponto de inflexão crucial na história da salvação. Este ato transcende o simples estabelecimento de um grupo de líderes e se inscreve na rica tapeçaria do plano divino para a humanidade. Ao selecionar os Apóstolos, Jesus não apenas instituiu uma nova liderança, mas também estabeleceu a estrutura fundamental da nova comunidade de fé que Ele veio fundar. Esta escolha, com seu profundo simbolismo e significado teológico, ecoa através das páginas das Escrituras e ressoa na experiência da Igreja até os dias atuais.

Jesus, ao chamar os doze Apóstolos, está fazendo uma declaração poderosa sobre a nova ordem que está estabelecendo. Os Apóstolos são escolhidos para ser a base da Igreja, a nova Jerusalém, uma comunidade que transcende as limitações da antiga aliança e se expande para incluir todos os povos e nações. Este novo Povo de Deus não é uma continuidade passiva da antiga aliança, mas uma realização dinâmica e universal da promessa divina, com uma missão renovada e uma nova compreensão do Reino de Deus. A missão dos Apóstolos, portanto, não é apenas uma questão de liderança administrativa ou organizacional. É uma missão de testemunho e proclamação, de vivência e de ensino da mensagem de Jesus Cristo. Eles são chamados a ser testemunhas de Sua vida, de Seus ensinamentos, de Sua morte e ressurreição. Esta missão é um reflexo do próprio ministério de Jesus, que buscou não apenas transmitir uma mensagem, mas transformar a realidade humana através da Sua presença e de Sua ação redentora.

A escolha dos doze Apóstolos por Jesus não é apenas um ato de organização, mas um ato de revelação e de inauguração. É um momento em que o plano divino para a salvação da humanidade começa a se concretizar de forma visível e tangível. Jesus, ao escolher os Apóstolos, está preparando o terreno para a Igreja, uma comunidade que será chamada a continuar Sua missão de proclamar o Reino de Deus e de transformar o mundo à luz do Evangelho. Este ato fundacional é, portanto, um momento de grande importância teológica e espiritual, marcando o início de uma nova era na história da salvação.

II. Os Doze Apóstolos

O simbolismo do número doze é carregado de importância teológica e histórica. Na tradição judaica, as doze tribos de Israel formavam a base da aliança que Deus fez com o Seu povo no Sinai, sendo o pilar da identidade e da organização do povo eleito. Ao escolher doze Apóstolos, Jesus não apenas fez uma referência direta a esta estrutura antiga, mas também a reinventou para a nova realidade da Igreja. Os Apóstolos, assim como as tribos, se tornaram a base do novo Povo de Deus.

O livro do Apocalipse, ao descrever a Jerusalém Celestial com doze portas e doze alicerces, reforça a ideia de continuidade e cumprimento das promessas divinas. A Igreja, descrita como a nova Jerusalém, está fundamentada sobre a testemunha e a missão dos doze Apóstolos. A citação de Apocalipse 21, 12-14 não é meramente simbólica, mas uma declaração de que a estrutura da Igreja é profundamente enraizada na missão e na autoridade conferida aos Apóstolos por Cristo.

O Catecismo da Igreja Católica, ao declarar que a Igreja é apostólica em três sentidos, sublinha a importância do testemunho apostólico. Primeiro, a Igreja se edifica sobre o testemunho direto dos Apóstolos, que foram escolhidos e enviados por Cristo. Segundo, ela preserva e transmite o ensinamento que foi recebido dos Apóstolos, com a assistência contínua do Espírito Santo. E terceiro, a missão dos Apóstolos é perpetuada por seus sucessores, os bispos, garantindo que a Igreja continue a ser guiada pela mesma autoridade espiritual até o retorno de Cristo.

III. A Natureza da Escolha dos Apóstolos

A escolha dos doze Apóstolos é um ato de profunda simbologia e significado teológico. Na Antiga Aliança, as doze tribos foram escolhidas para formar a base do povo de Deus, com um chamado específico para ser um povo separado e dedicado ao Senhor. No Novo Testamento, Jesus redefine esse conceito ao escolher os doze Apóstolos. A nova aliança estabelecida por Jesus é muito mais do que uma continuação da antiga; é uma renovação radical e uma expansão universal da promessa.

Os Apóstolos foram escolhidos não apenas para serem testemunhas da vida e dos ensinamentos de Jesus, mas para serem testemunhas de Sua ressurreição. A ressurreição de Cristo é o ponto de virada da história humana e o núcleo do Evangelho. A missão dos Apóstolos é anunciar essa vitória sobre a morte e o início do Reino de Deus. Eles são enviados ao mundo para proclamar a nova criação em Cristo, uma criação que transcende as barreiras do pecado e da morte.

Além de serem testemunhas e mensageiros, os Apóstolos são os primeiros fundadores da Igreja, a qual é chamada a continuar sua missão até o fim dos tempos. O Catecismo da Igreja Católica afirma que a Igreja é apostólica de três maneiras: pela sua fundação sobre os Apóstolos, pela preservação do ensinamento apostólico e pela continuidade da missão apostólica através dos sucessores dos Apóstolos. Esses três aspectos mostram como a Igreja não é apenas uma instituição humana, mas um corpo espiritual com uma conexão viva e contínua com Cristo e Seus primeiros emissários.

IV. Conclusão

O exemplo dos Apóstolos, com sua dedicação e fidelidade, serve como um modelo para todos os cristãos. Em um mundo cada vez mais virtual e interconectado, somos convidados a assumir a responsabilidade de anunciar a boa nova não apenas nas esferas tradicionais, mas também através dos meios modernos de comunicação. Assim como os Apóstolos levaram o Evangelho aos confins do mundo conhecido, devemos buscar maneiras inovadoras e eficazes de compartilhar a mensagem de Cristo em nossas realidades contemporâneas, sendo testemunhas autênticas e fervorosas da ressurreição e da vida nova em Cristo.

Os doze Apóstolos representam não apenas o fundamento da Igreja, mas também um exemplo eterno de fé e missão. Sua escolha por Jesus e sua missão de proclamar o Evangelho estabelecem o padrão para todos os cristãos. Em um mundo em constante mudança, somos chamados a emular a coragem e a fidelidade dos Apóstolos, utilizando todos os meios disponíveis para compartilhar a mensagem de Cristo. Ao vivermos essa missão, continuamos a edificar a Igreja sobre o firme fundamento dos Apóstolos, perpetuando sua mensagem e sua missão até o retorno glorioso de Cristo.

Dado em Roma, no Palácio do Santo Ofício, sede da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, 06 de Setembro do ano santo do Senhor de 2024, primeiro deste pontificado.


Gabriel Pedro de Alcântara Cardeal Orleans e Bragança
Prefeito