Diretório Litúrgico | Semana Santa

 

DIRETÓRIO LITÚRGICO
PARA A SEMANA SANTA

DOM LUCAS RIBEIRO,
POR MERCÊ DE DEUS E DA SANTA IGREJA,
SECRETÁRIO DO DICASTÉRIO PARA O 
CULTO DIVINO E DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS

A Semana Santa é uma das celebrações mais significativas do calendário litúrgico, que marca os eventos finais da vida de nosso Senhor, desde sua entrada triunfal em Jerusalém até sua crucificação, morte e ressurreição. É um período de profunda reflexão, penitência e renovação espiritual para os fiéis ao redor do mundo. Durante essa semana, as comunidades religiosas realizam uma série de cerimônias e rituais que relembram os eventos cruciais da Paixão de Cristo, culminando na celebração da Páscoa, que simboliza a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. A Semana Santa não é apenas uma ocasião religiosa, mas também um momento de conexão cultural e espiritual para muitos, que participam de tradições ancestrais e rituais que têm sido observados por séculos. 

1. É tradição da Santa Igreja Católica seguir sua tradição invicta e incorrupta pelos séculos, por isso, a Igreja não muda a Semana Santa, mas a segue, tradicionalmente, pela data estipulada pela lua. Portanto, este ano celebramos a semana santa de 24 e 31 de março, podendo ser celebrada na semana anterior.


2. Em nenhum dia da Semana Santa, desde as I Vésperas do Domingo de Ramos até as II Vésperas do Domingo da Páscoa é possível realizar ordenações ou dedicações, dado que nenhum dia desta Semana permite alteração na liturgia.


1 - Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor


3. A Semana Santa tem seu início marcado pelo Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, que combina o triunfo real de Cristo com a prenúncio de sua paixão. Na celebração e na instrução deste dia, é importante destacar esses dois aspectos fundamentais do mistério pascal.

4. Desde tempos antigos, a entrada do Senhor em Jerusalém é comemorada com uma procissão solene, na qual os cristãos recriam este evento, seguindo as aclamações e gestos das crianças hebreias que saudaram o Senhor com o canto do Hosana. Os pastores devem garantir que esta procissão, em honra a Cristo Rei, seja preparada e celebrada de maneira significativa para a vida espiritual dos fiéis.

5. A liturgia deste dia, que pode ser celebrada a qualquer hora do domingo ou após as 15h do sábado, consiste em dois momentos: a procissão e a missa. A procissão pode ocorrer nas ruas e pode ser uma entrada solene ou simples, seguindo as orientações do Semanário Litúrgico.

6. Quando a entrada for simples, a leitura da entrada em Jerusalém não é realizada, e é feito o Ato Penitencial.

7. Para esta missa, é importante preparar os Ramos para distribuir ao povo, decorar o altar com Ramos, providenciar um local para a leitura do primeiro Evangelho, seja na rua ou na entrada da Igreja, e separar os leitores do Evangelho da Paixão.

8. No Domingo de Ramos, é possível omitir as leituras e ler apenas o Evangelho, mesmo que em uma versão mais resumida, a critério do celebrante. No entanto, para o benefício espiritual dos fiéis, é recomendável que a história da Paixão seja lida integralmente, sem omitir as leituras que a precedem.

9. A narrativa da Paixão é celebrada com especial solenidade. É aconselhável que seja cantada ou lida de acordo com o modo tradicional, envolvendo três pessoas que representam a parte de Cristo, do cronista e do povo. A Passio é entoada ou lida pelos diáconos, sacerdotes ou, na falta deles, pelos leitores; nesse caso, a parte de Cristo deve ser reservada ao sacerdote. A proclamação da paixão é realizada sem os portadores de castiçais, sem incenso, sem saudação ao povo e sem tocar no livro; apenas os diáconos pedem a bênção do sacerdote, como é feito em outras ocasiões antes do Evangelho.


2 - Segunda, Terça e Quarta-feira da Semana Santa

10. Estes dias, repletos de celebrações de profundo simbolismo, devem ser marcados por intensos momentos de meditação sobre os eventos que precederam a Páscoa do Senhor.

11. Durante este período, é recomendável participar de diversas formas de piedade popular, como procissões, via-sacra, terços e outras práticas que ajudam a vivenciar este momento de maneira mais significativa. A cor litúrgica indicada para essas atividades é o roxo, embora para a via-sacra também se possa utilizar o vermelho.

12. É apropriado recitar as horas canônicas em qualquer um desses dias, como parte da prática espiritual.

3 - Missa do Cristo

13. Normalmente, a bênção dos óleos dos enfermos e dos catecúmenos, assim como a consagração do Crisma, são realizadas pelo bispo na Quinta-Feira da Semana Santa, durante a Missa específica, a qual é recomendável que seja celebrada pela manhã.

14. Caso seja difícil reunir o clero e os fiéis neste dia com o bispo, é permitido antecipar a bênção, contanto que seja próxima à Páscoa e ocorra durante uma Missa adequada.

15. Em cada diocese ou arquidiocese, é realizada apenas uma única Missa do Crisma, e não é celebrada nas dioceses titulares.

16. Durante essa Missa, na qual o bispo concelebra com seu clero, é um sinal de comunhão entre os presbíteros e seu Bispo. É recomendável que todos os presbíteros participem, na medida do possível, e comunguem sob as duas espécies.

17. Durante a homilia, o Bispo encoraja seus presbíteros a serem fiéis aos seus ministérios e os convida a renovar publicamente suas promessas sacerdotais. No contexto do Ano Sacerdotal, esse gesto ganha ainda mais relevância, e é recomendado que toda a homilia durante essa e outras celebrações do Bispo com seu clero aborde essa temática.

18. Na Missa do Crisma, independentemente de ser celebrada na Quinta-Feira Santa ou em outra data, a cor litúrgica apropriada é o branco ou festivo, e o altar deve ser adornado com flores.

19. É importante preparar as ânforas para os óleos e o Crisma antes da celebração da Missa.

4 - Tríduo Pascal | Missa Vespertina da Ceia do Senhor

24. A Missa vespertina da Ceia do Senhor pode ser celebrada desde a noite da Quarta-feira Santa até todo o decorrer da Quinta-feira Santa.

25. Conforme a antiga tradição da Igreja, neste dia é proibida qualquer Missa sem a presença do povo (ou seja, deve haver pelo menos um concelebrante ou assistente).

26. Para esta Missa, é importante que o sacrário tenha sido esvaziado e sua luz apagada antes do início da celebração. Se possível, é recomendado que o vazio do sacrário seja demonstrado de alguma maneira.

27. Da mesma forma, é necessário preparar, antes da Missa e fora do presbitério ou, se possível, fora da igreja mas conectado a ela, o altar da reposição. Este altar, ornamentado, servirá como um lugar onde a reserva Eucarística será colocada em uma urna ou sacrário para a adoração dos fiéis. Deve ser ornamentado de forma a facilitar a oração e a meditação, mantendo a sobriedade adequada à liturgia destes dias e evitando qualquer tipo de abuso.

28. Os paramentos utilizados são brancos ou festivos, e a igreja pode ser adornada com flores.

29. Recomenda-se o uso de incenso durante esta Missa.

30. Durante o Hino de Louvor, os sinos e campainhas são tocados. Após este momento, eles permanecerão em silêncio (ou, se possível, serão retirados) até que sejam tocados novamente no Glória da Vigília Pascal.

31. O rito de lava-pés é opcional nesta celebração.

32. Durante a transladação do Santíssimo, não se retira a casula nem se utiliza ostensório. Em vez disso, o véu umeral é colocado sobre a casula, e o Senhor é levado envolto pelo véu umeral na âmbula.

33. Ao final da Missa, todos os enfeites que não são parte da estrutura da igreja devem ser retirados, incluindo flores, velas, toalhas e outros adornos. Se as imagens não foram veladas, a cruz deve ser velada ou retirada, se possível.

5 - Tríduo Pascal | Sexta-feira da Paixão do Senhor

*Pedimos aos clérigos, encarecidamente, que no tardar da Sexta-feira Santa, isto é, às 15h, horário em que a Igreja celebra a Morte do Senhor, que os clérigos façam, se não puderem estar presente em suas igrejas na realidade, um momento de adoração à cruz do Senhor e não se façam onlines no Habblet nem mesmo para a celebração virtual. 

34. Neste dia, em que "Cristo, nosso Cordeiro Pascal, foi imolado", a Igreja, ao meditar na paixão de seu Senhor e Esposo e ao adorar a cruz, recorda o seu nascimento do lado de Cristo, que repousa na cruz, e intercede pela salvação de todo o mundo.

35. A celebração da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo deve ocorrer exclusivamente na Sexta-Feira Santa, ao longo de todo o dia.

36. Na Sexta-Feira Santa e no Sábado Santo, de acordo com uma tradição antiga, a Igreja não realiza a celebração dos sacramentos.

37. Deve-se respeitar com devoção e fidelidade a estrutura da celebração da Paixão do Senhor (Liturgia da Palavra, Adoração da Cruz e Sagrada Comunhão). Não é permitido introduzir mudanças arbitrárias.

38. O altar deve estar completamente despojado, sem cruz, castiçais ou toalhas.

39. O sacerdote e o diácono devem vestir paramentos vermelhos, como para a Missa, ou seja, o sacerdote com a casula e o diácono com a dalmática. Os paramentos devem ser simples.

40. Não se deve usar capa de aspersão, nem paramentos negros.

41. Neste ofício os bispos lembrem-se que: 
a) Não se usa dalmática sob a casula; 
b) Não se usa anel; 
c) A Mitra deve ser completamente branca (a do papa com detalhes dourados); 
d) Não se usa báculo ou férula;
e) Se for arcebispo ou gozar do uso do pálio, não usa-o.

42. O foco principal desta celebração é a leitura da Palavra de Deus, pois o povo se reúne para acompanhar o mistério da Morte de seu Divino Mestre. Portanto, não se deve cortar ou omitir leituras das Escrituras, nem integralmente nem parcialmente.

43. A Comunhão não deve ser guardada nem no sacrário nem no altar da reposição após esta celebração.

6 - Domingo de Páscoa | Vigília Pascal na Noite Santa

46. Segundo a tradiçãol, esta noite é considerada "uma vigília em honra do Senhor" (Ex 12,42). Assim, os fiéis, seguindo a orientação do Evangelho (Lc 12,35ss), devem ter em mãos lâmpadas acesas, como os que aguardam a chegada do Senhor, para que, ao retornar, Ele os encontre vigilantes e os convide a se sentar à sua mesa. Mesmo que celebrada antes da meia-noite, a Missa da vigília é a verdadeira Missa do domingo da Páscoa.

47. A vigília pascal deve ser obrigatoriamente celebrada durante a noite do Sábado Santo, e somente após às 14h, horário das vésperas e início da noite. Recomenda-se, no entanto, que as celebrações da Vigília Pascal ocorram após o pôr do sol, conforme a essência da mesma. De qualquer forma, ela é celebrada durante a Noite Santa.

48. Onde não foi possível celebrar a Vigília Pascal, deve-se proceder à celebração da Luz e à Missa própria do dia da Oitava em uma das noites da Oitava Pascal, a fim de que se possa ter o Círio Pascal. Caso o Círio Pascal não tenha sido abençoado, ele não deve ser disposto na igreja.

49. O sacerdote e os ministros devem vestir paramentos brancos, como para a Missa ou ocasiões festivas.

50. Deve-se preparar velas para todos os participantes da vigília.

51. Para esta Missa, é necessário preparar o Círio Pascal e seu suporte, a fogueira, as flores e a pia batismal, além de todos os demais elementos para uma celebração solene.

52. Na medida do possível, deve-se preparar fora da igreja, em um local adequado, o braseiro para a bênção do fogo novo, cuja chama deve dissipar as trevas e iluminar a noite.

53. A procissão na qual o povo entra na igreja deve ser iluminada apenas pela luz do Círio Pascal. Assim como os filhos de Israel eram guiados à noite pela coluna de fogo, os cristãos seguem agora a Cristo ressuscitado.

54. Gradualmente, a luz do Círio Pascal passará para as velas que os fiéis seguram em suas mãos, enquanto as lâmpadas elétricas permanecem apagadas.

55.  Recomenda-se que sejam utilizadas três leituras, conforme indicado no Semanário. Se necessário, pode-se optar por duas leituras ou adicionar mais do Antigo Testamento, utilizando o Missal Romano. A terceira leitura (Êxodo 14) e seu salmo nunca devem ser excluídos.

56. Após a leitura do Antigo Testamento, entoa-se o Glória a Deus, tocam-se os sinos de acordo com os costumes locais, profere-se uma oração e prossegue-se com as leituras do Novo Testamento. Lê-se então a exortação do apóstolo sobre o Batismo, entendido como inserção no mistério pascal de Cristo.

57. Em seguida, todos se levantam: o sacerdote entoa por três vezes o Aleluia, elevando gradualmente a voz, e o povo repete. Finalmente, o Evangelho é proclamado, anunciando a ressurreição do Senhor como ápice de toda a liturgia da Palavra. A homilia não deve ser omitida, mesmo que breve.

58. A terceira parte da vigília é dedicada à liturgia batismal. A Páscoa de Cristo e nossa é agora celebrada no sacramento. Se não houver a cerimônia do Batismo ou a bênção da água batismal, a memória do Batismo é evocada na bênção da água que será usada para aspergir o povo.

59. Em seguida, ocorre a renovação das promessas batismais, introduzida por uma palavra do celebrante. Os fiéis, de pé e com as velas acesas na mão, respondem às perguntas.

60. Após a renovação das promessas batismais, os fiéis são aspergidos com água, recordando-lhes assim o Batismo que receberam.

61. A celebração da Eucaristia constitui a quarta parte da vigília e seu ápice, sendo o sacramento pleno da Páscoa, memorial do sacrifício da cruz e presença de Cristo ressuscitado, consumação da iniciação cristã e antegozo da Páscoa eterna.

7 - Domingo de Páscoa

62. As comunidades que celebraram a Vigília Pascal na noite do Sábado para o Domingo de Páscoa ou aquelas que optaram por não celebrá-la e não usarão o Círio Pascal podem realizar normalmente a segunda Missa da Páscoa no dia seguinte. Durante esses oito dias que se seguem à Noite Santa, a celebração é marcada pela mesma exultação do Dia da Páscoa do Senhor. Ao longo de cinquenta dias, a Igreja proclamará: "O Ressuscitado vive entre nós!"

8 - Conclusão

Jesus Cristo, nosso Senhor, é o Cordeiro de Deus, que, imolado, já não morre e, estando morto, vive eternamente. Por isso, esperamos que as celebrações pascais em nossa realidade virtual sejam acolhedoras para seus participantes, incentivando-os a vivenciar a Páscoa do Senhor não apenas virtualmente, mas também por meio dos sagrados rituais e do espírito renovado. Que nós, que celebramos, possamos buscar a renovação de nosso ser no mistério do Cristo morto e ressuscitado, fonte de nossa esperança e de nossa vida.

Confiamos à Virgem Maria, Mãe das Dores e Mãe da Alegria, Senhora que acompanhou seu Cristo nos sagrados mistérios, para que ela nos ensine a seguir os passos de Jesus e alcançar com Ele a vitória sobre o pecado e a morte.

Dado e passado em Roma, no gabinete do Dicastério para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, no dia 16 de março do ano da graça do Senhor de 2024.

+ Lucas Ribeiro, OFMcap
Secretário